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Milho e soja: custo de produção e rentabilidade na safra 2003/04

            A produção de milho na safra de verão 2003/04, no Estado de São Paulo, foi de 3,385 milhões de toneladas, o que corresponde a uma queda de 1,9% em relação à safra do ano precedente, segundo o quarto levantamento de previsão de safras, do IEA/CATI, realizado em abril de 2004. A produção paulista de soja, estimada em 1,828 milhão de toneladas, aumenta 11,6% em relação ao ano passado. Na cultura do milho a diminuição da produção se deve à redução da área plantada (3,4%), enquanto na soja a expansão da área (22,2%) compensou a queda da produtividade.
            A cultura da soja no Estado de São Paulo, a exemplo das demais regiões produtoras do Brasil, sofreu na presente safra adversidade climática (estiagem) e ocorrência de doenças (principalmente a ferrugem asiática), que afetaram negativamente o desenvolvimento vegetativo, a produção e a qualidade de grãos.
            O fato mais significativo foi o ataque generalizado da ferrugem asiática, cuja severidade resultou em danos na produção e no aumento dos custos de produção. Muitos produtores, por desinformação ou por imprevidência, não puderam ou não souberam proteger adequadamente suas lavouras e sofreram sérios prejuízos na produção. O clima (falta de chuvas) na maioria das regiões agrícolas do Estado também prejudicou a produtividade da cultura.
            Os mercados internos de milho e soja na presente safra vinham apresentando evolução sazonal normal até maio. Desde então, os preços dos dois produtos vem sofrendo quedas sucessivas, com as notícias de bom desempenho das lavouras nos Estados Unidos, com previsão de aumentos de produção.
            O preço médio de milho recebido pelos produtores paulistas na safra 2003/04, estimado em R$ 18,00 por saca de 60kg, corresponde a uma queda de 10% em relação ao da safra anterior. O preço médio da soja, estimado em R$ 45,00, é 25% maior que o da safra 2002/03. Ao contrário do milho, cuja safra é, na sua quase totalidade, vendida logo após a colheita, a soja tem parte da sua produção vendida antecipadamente, a preços combinados na época da contratação do financiamento (privado) do custeio da safra.
            Nesta conjuntura, de queda da produção brasileira de grãos e de elevação dos preços dos insumos, serviços e máquinas, torna-se interessante apresentar uma análise comparativa dos custos de produção e de rentabilidade das culturas de milho e soja do presente ano-safra, no Estado de São Paulo.
            Foram estimados os custos operacionais de milho de verão e de soja, na região de Assis, a maior produtora paulista dos dois grãos. O sistema plantio direto, com uso de dessecante para a semeadura na palha nas duas culturas, configura-se como uma tecnologia com adoção crescente no Estado, tendo em vista suas vantagens econômicas e conservacionistas. A produtividade esperada da cultura do milho foi de 100 sacas de 60 kg (6.000 kg) por hectare e a da soja, de 50 sacas de 60 kg (3.000 kg). Os preços dos materiais utilizados, da mão-de-obra e dos serviços foram coletados na região de Assis, em maio de 2004 (tabela 1). 
            Nota-se uma elevada participação dos defensivos (ou agrotóxicos) no custo operacional total, tanto do milho (21%) quanto da soja (32,1%).1 Destaque-se, também, a pequena participação da mão-de-obra (2% no milho e 1,9% na soja) e as participações semelhantes, nas duas culturas, dos itens sementes (14,6% no milho e 15,4% na soja) e operações de máquinas (14,2%).

TABELA 1 - Estimativa de custo operacional e de rentabilidade das culturas de milho de verão e de soja, sistema plantio direto, Região de Assis, Estado de São Paulo, safra 2003/04, por hectare
(em R$ de maio de 2004)

Item 
Milho (6.000kg/ha)
Soja (3.000kg/ha)
R$ 
%
R$ 
%
Mão-de-obra
24,44 
2,0
22,74 
1,9
Sementes1
180,00 
14,6
179,84 
15,4
Adubos e corretivo
315,68 
25,7
209,33 
17,9
Defensivos
258,74 
21,0
375,51 
32,1
Operações de máquinas
174,46 
14,2
165,98 
14,2
Transporte do produto2
80,00 
6,5
30,00 
2,6
Custo operacional efetivo (COE)
1.033,31 
84,0
983,39 
84,0
Depreciação de máquinas
64,77
5,3
59,84 
5,1
Encargos sociais diretos3
8,06 
0,7
7,50 
0,6
CESSR4
39,60 
3,2
49,50 
4,2
Seguro5
62,00 
5,0
49,17 
4,2
Encargos financeiros6
22,11 
1,8
21,04 
1,8
Custo operacional total (COT)
1.229,86 
100,0
1.170,45 
100,0
Custo operacional por saco
12,30 
-
23,41 
-
Produtividade esperada (sc./ha)
100 
-
50 
-
Preço recebido (R$/sc.)
18,00 
-
45,00 
-
Receita bruta (RB) (R$/ha)
1.800,00 
-
2.250,00 
-
Receita líquida (RB - COT) (R$/ha)
570,14 
-
1.079,55 
-
Margem bruta (RL/COT) (%)
46,36 
-
92,23 
-
Ponto de nivelamento7 (sc./ha)
68 
-
26 
-
1 Na soja inclui inoculante (R$ 3,84).
2 Serviço sob empreita.
3 Refere-se à mão-de-obra comum e tratorista (33%).
4 Refere-se à contribuição de seguridade social de 2,2% sobre a receita bruta.
5 Refere-se ao seguro da COSESP (6% e 5% do COE para milho e para soja, respectivamente).
6 Taxa de juros de 8,75% a.a. sobre 50% do COE durante o ciclo de produção.
7 Produção mínima que cobre o custo operacional total.
Fonte: Instituto de Economia Agrícola (IEA).

            No caso da soja, o custo dos defensivos aumentou na presente safra em razão do aumento do número de aplicações, notadamente para o controle da ferrugem, e do incremento dos preços desses insumos, dada a escassez do produto no mercado e o súbito aumento da procura.
            Deve ressaltar-se, no tocante aos encargos financeiros, que o aumento do custo de produção não foi acompanhado pelo aumento da disponibilidade de crédito de custeio a recursos controlados (juros de 8,75% ao ano). Dessa forma, parcela significativa do orçamento de custeio deve ser coberta com crédito no mercado livre, a juros mais elevados, o que eleva o dispêndio total com encargos financeiros.
            O custo operacional total (COT) da cultura do milho foi de R$ 1.229,86/ha e de R$ 12,30 por unidade produzida. O COT da cultura da soja foi de R$ 1.170,45/ha e de R$ 23,41 por saca de 60kg. O custo unitário da soja aumentaria para R$ 27,54, assumindo-se que, em função das condições climáticas desfavoráveis e da ocorrência da ferrugem, a cultura tenha uma queda de 15% da produtividade.
            A margem bruta (relação entre receita líquida e custo operacional total) foi de 46,4% para o milho e de 92,2% para a soja, ou seja, a rentabilidade da cultura da oleaginosa foi quase o dobro da do milho. O ponto de nivelamento, ou seja, a produção mínima que cobre o custo operacional total (considerando-se os preços dos grãos), foi de 68 sacas para o milho e de 26 sacas para a soja2.
            Esta foi a situação de rentabilidade das culturas da safra 2003/04, considerando-se os preços dos itens de custo em maio de 2004 e dos preços médios de milho e soja no período de colheita (fevereiro-maio). A tendência declinante dos preços desses grãos desde maio, numa conjuntura de juros elevados, diminui a lucratividade da parcela da produção estocada para venda futura.

1 Ver, a respeito, MELLO et al. Estimativa de custo de produção e de desempenho econômico para os principais grãos e mandioca – Estado de São Paulo – safra agrícola 1999/2000. Informações Econômicas, SP, v.30, n.7, p.58-68, jul. 2000.
2 Leia mais sobre custo de produção de milho e soja nos sites: CONAB (www.conab.gov.br), Embrapa Agropecuária Oeste (www.cpao.embrapa.br), DERAL/PR (www.pr.gov.br/seab/), Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Estado de Goiás (
www.seagro.go.gov.br ) e Instituto CEPA/SC (www.icepa.com.b
r).  

 

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Data de Publicação: 20/07/2004
Autor(es): Alfredo Tsunechiro (tsunechiro@uol.com.br) Consulte outros textos deste autor