Expectativa de Duradouro Ciclo de Baixa para os Preços do Café

Em novembro de 2018, os negócios futuros de café arábica na Bolsa de Nova York exibiram acentuado movimento baixista. A ampliação significativa da oferta brasileira, suficiente para atender tanto o mercado interno como internacional, arrefeceu o movimento especulativo com as vendas se sobrepondo às compras. A média das cotações em segunda posição (maio/2020) da primeira semana foi de US$¢121,54/lbp e, na média da quarta semana do mês em igual posição, baixou para US$¢114,42/lbp, ou seja, -5,86% de queda no mês (Figura 1).

 

 

No polo francano, principal cinturão de lavoura cafeeira do estado, o preço médio recebido pelos cafeicultores pela saca de café beneficiado de 60 kg - bebida dura tipo 6 - foi de R$433,142. Considerando a média das cotações da quarta semana em segunda posição de US$¢114,42/lbp e efetuando-se as devidas conversões, obtêm-se US$151,34/sc. que, convertidos para reais pelo câmbio médio da PTAX de novembro de 2018 (US$1,00=R$3,79), alcançam R$573,57/sc. Aplicando-se deságio de 20% em razão do diferencial contrato C x naturais brasileiros e outros custos de contratação do hedge, obtêm-se R$458,86/sc., ou seja, apenas R$25,72/sc. de vantagem financeira, montante aparentemente interessante para apostar na venda futura.

No mercado futuro de café robusta centralizado na Bolsa de Londres, em novembro de 2018, as médias semanais das cotações acompanharam o movimento baixista do arábica em Nova York, exibindo perdas acentuadas no mês. Em segunda posição, o declínio da média das cotações na primeira semana frente a média da quarta semana foi de -3,98% (Figura 2).

 

 

         A expectativa de colheita recorde no Vietnã (acima dos 30 milhões de sacas), associada à forte recuperação da produção de conilon brasileiro, não oferece grande margem para a especulação. A maior queda relativa do arábica frente ao robusta torna o primeiro ainda mais competitivo na composição do blend das torrefadoras, sendo esse fato outro elemento baixista para a formação dos preços do robusta na Bolsa de Londres.

         O montante de posições líquidas vendidas por parte dos fundos e grandes investidores é bastante expressivo (aproximadamente 40 mil contratos) (Tabela 1). Prevalece, assim, o movimento baixista para a formação dos preços.

 

        

Ainda que tenha ocorrido grande adesão às podas de manejo por parte dos cafeicultores, o satisfatório regime de precipitações, que tem incidido sobre os principais cinturões produtores de café no Brasil, permite estimar que o próximo ciclo (produção de baixa) tende a oferecer safra bastante volumosa, devendo manter o mercado plenamente abastecido. Haverá avanço nas cotações somente mediante de fatos novos (autorização do drawback do café no Brasil e/ou ocorrência de geada em importantes cinturões). A safra 2019/20 será um teste para os cafeicultores que precisarão exercitar sua gestão no limite da eficiência agronômica e econômica, visando obter alguma rentabilidade nas suas explorações.

Dados de consultorias antecipam que brevemente o Brasil se tornará o maior consumidor de café do planeta. Essa perspectiva pode induzir agentes econômicos desse agronegócio a destravarem seus projetos de investimento. Novas plantas de café solúvel já foram anunciadas e os demais industriais do segmento devem também apostar no país como a maior plataforma global para o café, algo que poderá ser acompanhado ao longo de próxima década.


__________________________________________________

 

1O autor agradece o trabalho de sistematização do banco de dados econômicos conduzido pelo Agente de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica do IEA, o analista de sistemas Paulo Sérgio Caldeira Franco.

 

2INSTITUTO DE ECONOMIA AGRÍCOLA - IEA. Preços diários médios recebidos pelos produtores. São Paulo: IEA, 2018. Disponível em: <http://ciagri.iea.sp.gov.br/precosdiarios/precosdiariosrecebidos.aspx?cod_sis=6>. Acesso em: dez. 2018.

 

 

 

 

 

Palavras-chave: mercado futuro, Bolsa de Valores, cotações do café.


Data de Publicação: 17/12/2018

Autor(es): Celso Luís Rodrigues Vegro (celvegro@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor