Brasil-China: preocupação com desafios supera otimismo com oportunidades

            Maior temor com os desafios do que otimismo com as oportunidades. Este foi o clima predominante no seminário 'A emergência da China - oportunidades e desafios para o Brasil' que a Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F)1, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)2 e o Conselho Empresarial Brasil-China3 promoveram no dia 02 de março em São Paulo. Apesar do pessimismo presente, os promotores do evento já pensam em fazer, este ano, um seminário sobre o potencial do agronegócio no comércio bilateral.
            Em resumo, três questões foram discutidas no evento: protecionismo; invasão de produtos chineses baratos no mercado interno; e concorrência desleal em terceiros países.

Protecionismo

            A corrente de comércio entre os dois países, que fechou 2004 em torno de US$ 9 bilhões, caminha para ultrapassar os US$ 10 bilhões, segundo o secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC)4 , Ivan Ramalho. Mas ele alertou que o superávit comercial conseguido pelo Brasil, de US$ 1,7 bilhão no ano passado, tende a recuar porque as importações estão aumentando mais do que as exportações. Alguns analistas chegam a prever que em breve este saldo positivo se transforme em déficit.
            De acordo com as estatísticas chinesas, o comércio bilateral somou 12 bilhões de dólares americanos em 2004, podendo chegar aos 15 bilhões de dólares americanos este ano. O embaixador chinês, Jinang Yuande, disse que o fluxo de comércio exterior chinês, de 1,1 trilhão de dólares americanos, deve atingir os 2 trilhões de dólares americanos nos próximos anos. E cobrou dos brasileiros maior agressividade nos negócios, alegando que o reconhecimento da China como economia de mercado abre novas perspectivas de negócios e de investimentos bilaterais em áreas como infra-estrutura e construção civil. Os representantes chineses no Brasil insistem na importância de aumentar o montante e se ter uma balança comercial bilateral equilibrada.
            O ex-embaixador Rubens Barbosa, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp)5 , considera que o Brasil é 'comprado' pelos chineses, ao se referir às exportações para aquele país de minério de ferro e produtos agrícolas principalmente soja (mais de 60% da pauta). E, enquanto a balança comercial entre os dois países como um todo teve saldo favorável ao Brasil de US$ 1,7 bilhão em 2004, o setor industrial (35% das exportações brasileiras para a China) apresentou déficit de US$ 1,6 bilhão.
            Essa diferença entre os setores agrícola e industrial pode alargar-se, a julgar pela visão do professor Marcos Jank, diretor do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Ícone)6, que vê espaço para ampliar as exportações, principalmente de grãos, açúcar e carnes, para a China. O crescimento mais rápido da população, com a conseqüente incorporação de novos consumidores e aumento do padrão de consumo, e a deficiência chinesa na oferta de vários produtos por falta de terras disponíveis, respaldam essa visão de Jank que inclusive vê possibilidade de ações complementares na agricultura intensiva de trabalho (horticultura e fruticultura). Porém, ele acredita que a China não deve abrir o setor agrícola de maneira generalizada e muito menos para um único país, optando por atuar em conformidade com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC)7.
            Também o economista Marcelo Paiva Abreu, professor da PUC-Rio8 , vê perspectivas na venda de soja, carnes e ferro para a China, o mesmo não ocorrendo na área industrial. Para ele, a sustentabilidade das exportações depende do consumo chinês, em termos quantitativos e qualitativos.
            Em 2004, as exportações brasileiras para a China aumentaram 20%, enquanto as importações da China cresceram 72% no mesmo período. Os especialistas apontaram como causas desse descompasso barreiras não-tarifárias no mercado chinês; tentativas de forçar baixa de preço de produtos dos quais se torna grande importadora (soja, minério, etc.); desrespeito à propriedade intelectual; política cambial dos dois países (câmbio fixo lá e real valorizado aqui); juros baixos e crédito abundante dos bancos estatais chineses (inclusive com alta inadimplência); custo do capital, excessiva carga tributária e infra-estrutura deficiente no Brasil.

Invasão chinesa

            O presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (ABIT)9, Josué Christiano Gomes da Silva, foi contundente na crítica sobre a facilidade de entrada no mercado brasileiro de produtos de confecções chinesas a preços subfaturados. Ele defendeu a aplicação de salvaguardas contra a concorrência desleal, com base nas regras da OMC.
            O empresário disse que a cadeia têxtil brasileira apresenta déficits comerciais seguidos com a China desde 1995, com a exportação de matérias-primas como algodão e a importação de sintéticos. Segundo Josué, a China respondeu em 2004 por 61% das importações brasileiras de têxteis e vestuário contra 21% no ano anterior. E, mais grave, a um preço médio 79% inferior ao pago pelos norte-americanos.
            O reconhecimento da China como economia de mercado gerou uma das manifestações mais contundentes do seminário. O ex-embaixador Rubens Barbosa considerou um equívoco a decisão do governo brasileiro em troca apenas de 'intenções' por parte do governo chinês. Ele apontou assimetrias nas condições de competitividade e informou que a Fiesp está criando uma divisão para monitorar o comércio entre os dois países e orientar as empresas brasileiras a comprovarem práticas comerciais lesivas, abrindo possibilidades para o governo brasileiro adotar medidas de salvaguardas ou antidumping contra produtos chineses com base nas regras da OMC.
            O economista Marcelo Paiva Abreu mostrou-se pouco entusiasmado com a possibilidade de aplicação de salvaguardas contra a China na OMC. Ele questionou medidas defensivas (antidumping) recentes contra importações chinesas em valores modestos de produtos como alho e glifosato (matéria-prima de defensivos). Considerou inexplicável que o país não tenha ingressado com ações antidumping contra importações de equipamentos da China.

Terceiros mercados

            A exportação de commodities, como minério de ferro, ironicamente torna os chineses grandes competidores do Brasil em outros mercados, de acordo com o Marcelo Paiva Abreu. Tanto que a China aumentou substancialmente, a partir da década de 1990, a sua participação no mercado dos Estados Unidos, enquanto o Brasil caminhou na contramão. Para Rubens Barbosa, os produtos brasileiros, em setores industriais como têxtil e aço, estão perdendo competitividade para os chineses em mercados como os Estados Unidos, principalmente por causa das políticas de juros e cambial dos dois países.
            O professor Marcos Jank vai além da Fiesp na sua crítica à decisão do governo brasileiro de dar à China o status de economia de mercado. Para ele, a dimensão externa da medida é mais grave, ou seja, o governo aceita e compactua com a maneira como a China opera no mercado internacional, diferentemente da postura da Europa e dos Estados Unidos. Daí a importância, ao seu ver, de se construir e cumprir regras internacionais válidas para todos os países.
            Em estudo elaborado para o BID10 , os economistas Mauricio Mesquita Moreira e Andrés Rodriguez mostram que o país asiático vem se transformando em forte concorrente em bens intensivos em tecnologia e uma pauta diversificada nas exportações em níveis próximos do padrão das economias desenvolvidas. O modelo exportador chinês pode ser definido como altamente dinâmico e diversificado. Porém, nos setores intensivos em mão-de-obra não se deve esperar que as diferenças salariais entre a China e países latino-americanos se reduzam no curto prazo.
            A China é altamente beneficiada pela posição geográfica e pelos custos de comércio, observam os economistas. De um lado, o país tem vantagens no custo de produção por estar próximo de uma vasta rede de fornecedores industriais asiáticos. De outro, a relativamente longa distância de um dos seus principais mercados importadores, os Estados Unidos, de cerca de 11.700 km (Califórnia), não é muito maior do que os cerca de 8.800 km da parte mais distante da América do Sul em relação à Flórida.
            Em termos de logística, a desvantagem geográfica é compensada pelas vantagens no custo do transporte marítimo (e mesmo aéreo), quando comparado com países latino-americanos como o Brasil, de acordo com o estudo. A maior parte das exportações chinesas para o mercado norte-americano é feita em contêiners, que reduzem significativamente as despesas de embarque e desembarque e facilitam o movimento de cargas, em comparação com os países latino-americanos. Também o custo ad valorem (custo marítimo por valor) é comparável e mesmo menor do que o da América Latina devido ao maior valor agregado dos produtos chineses. Ou seja, eventual vantagem de proximidade em termos de transporte marítimo é perdido devido à especialização em produtos de baixo valor.
            Contudo, o transporte não é determinado somente pela distância, mas também pela escala de operação. Devido à menor escala, as exportações latino-americanas para os Estados Unidos geralmente param em vários portos na rota, enquanto o transporte entre China e Estados Unidos é muito mais direto. Outra vantagem é a escala do mercado chinês, o que beneficia o desenvolvimento das cadeias produtivas e a diluição do custo dos investimentos, diz o estudo do BID.
            Contribui ainda para a vantagem chinesa, segundo os economistas do BID, o papel agressivo do Estado na oferta 'ilimitada' de crédito a juros baixos, os subsídios 'generosos' nos investimentos em pesquisa e desenvolvimento e a aplicação seletiva de direitos de propriedade intelectual. Acrescenta-se ainda o regime dual de comércio, em que são dadas todas as facilidades às exportações e aplicadas inúmeras restrições às importações.
            Na competição com a América Latina, China e México tem sido os maiores propulsores do crescimento dos 'market shares' regionais, diz o estudo. De maneira geral, os países latino-americanos têm grande superávit em rodutos primários, enquanto a Ásia acumula superávits em bens intensivos de tecnologia.
            A participação da China nos investimentos diretos globais atingiu 6,3% em 2003, suplantando os Estados Unidos na liderança mundial como destino desses recursos. As razões mais apontadas são as reformas que levaram à abertura da economia, a abundante e disciplinada mão de obra de baixo custo e o grande mercado doméstico. Com a adaptação às regras da OMC, a China deve tornar-se mais atrativa aos investidores externos, inclusive em setores de serviços.
            Porém, o efeito sobre a América Latina deve ser pequeno. Mesmo com o crescente fluxo de capital para a China, as estimativas indicam pequena queda marginal (cerda de 4%) no fluxo de investimentos diretos para a América Latina. Os investimentos chineses têm origem predominante da Ásia, enquanto os latino-americanos vêm principalmente da Europa e dos Estados Unidos. De qualquer forma, México e América Central competem mais diretamente por investimentos com a China, dada a sua posição estratégica frente ao mercado dos Estados Unidos.
            Em relação ao setor têxtil, o estudo do BID mostra que a única vantagem da América Latina é a geográfica, que permite o acesso em menor tempo ao mercado norte-americano. Além dos salários baixos, o setor têxtil chinês é verticalmente integrado (cluster).

Visão otimista

            Duas palestras chamaram a atenção pela visão menos pessimista das relações bilaterais. O presidente da Fundação Dom Cabral (FDC)11, Emerson de Almeida, destacou o amplo mercado de formação de executivos na China a ser conquistado. As melhores escolas de business do mundo (norte-americanas, inglesas e asiáticas) já estão presentes na China, trabalhando em parceria com universidades locais.
            O esforço de integração internacional, inclusive na área gerencial, aliado à tendência de a China se firmar como o segundo maior parceiro comercial do Brasil provavelmente ainda nesta década e se manter próxima dos Estados Unidos (maior parceiro comercial brasileiro) nas próximas décadas, reforça o conceito de aliança estratégica numa visão de longo prazo. Daí porque os empresários brasileiros devem preparar-se para entender, sobretudo, os aspectos culturais do povo chinês. Mesmo que o jogo de interesses no cenário internacional se altere entre lances de competidores e lances de cooperação.
            Finalmente, o empresário Roberto Teixeira da Costa, do conselho curador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI)12, lembrou que a China é um mercado potencial para a exportação de serviços (software, construção civil e experiências em regulamentação do mercado de capitais, bolsas, privatizações, etc.) e de turismo.
 
 

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1 BM&F: www.bmf.com.br

2 BID: www.iadb.org

3 CEBC: www.cebc.org.br

4 MDCE: www.mdce.gov.br

5 FIESP: www.fiesp.com.br

6 ICONE: www.iconebrasil.org.br

7 OMC: www.wto.org

8 PUC-Rio: www.puc-rio.br

9 ABIT: www.abit.org.br

10 A emergência da China: Oportunidades e desafios para a América Latina e o Caribe'. Íntegra disponível em http://www.cebc.org.br.

11 FDC: www.domcabral.org.br

12 CEBRI: www.cebri.org.br

13 Artigo registrado no CCTC-IEA sob número HP-16/2005

 

Data de Publicação: 10/03/2005

Autor(es): José Venâncio De Resende (venancio@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor