Commodities: cotações indefinidas em maio

            Os mercados das commodities tiveram comportamento desfavorável em maio, especialmente para grãos e fibras, em função das condições climáticas e do ritmo de plantio no Hemisfério Norte. Nos Estados Unidos, na segunda quinzena do mês, com a estiagem no cinturão dos grãos, começou a ocorrer o mercado de clima, com efeitos sobre as cotações, o que deu o tom no mercado internacional da soja, do milho, do trigo e do algodão.
            Assim, cinco das nove commodities analisadas neste artigo apresentaram queda de preço no mercado de futuros, enquanto as outras três registraram variações positivas. Isto indica nova estabilidade nas cotações, com exceção do café robusta que apresentou alta expressiva.
            O boi gordo, quando cotado em dólar por arroba, apresentou alta na BM&F devido ao fato de que o valor do dólar em reais caiu 5,04% no mês, pois, quando se considera a cotação em reais, observa-se estabilidade. Mas, no acumulado de 12 meses, grãos, fibras e borracha natural continuam com expressivas variações negativas, como nos casos de algodão, soja, milho, trigo e borracha.
            Assim, as baixas e/ou estabilidade nas cotações de grãos e fibras em maio reduziram as expectativas de reversão iniciadas em março para a tendência ao longo de doze meses. Na tabela 1, são apresentados os resultados da análise das cotações externas das principais commodities agrícolas, com base nas cotações médias mensais dos contratos futuros de segunda posição de entrega, ocorridos em abril, negociados nas bolsas de Chicago (trigo, soja e milho) e de Nova York (açúcar, café, algodão e suco de laranja), além da borracha na Malásia, do café robusta em Londres e do boi na BM&F.

Tabela 1 – Variação dos preços das commodities nos diferentes mercados futuros, segunda posição, maio de 2005 e o acumulado em 12 meses
(em percentagem)

Commodities
Mercado
Maio de 2005
Acumulado 
2005
Acumulado 
12 meses
Açúcar
NY
0,58
-4,76
22,63
Algodão
NY
-2,85
22,37
-13,28
Café arábica
NY
-1,23
20,62
65,96
Café robusta
Lo
10,45
48,19
56,07
Suco Laranja CC
NY
-2,23
11,53
62,24
Soja grão
CHT
1,33
18,14
-29,82
Milho 
CHT
-0,04
3,43
-27,84
Trigo
CHT
0,43
6,02
-15,48
Borracha SM20
Malásia
-0,42
2,65
-4,35
Boi
BM&F
5,41
-0,12
10,39
Boi – em reais
BM&F
0,22 
-10,00
-9,49 

Fonte: Elaborado pelo IEA a partir dos dados das Bolsas Internacionais e da BM&F

            A atuação do chamado mercado de clima nos Estados Unidos, em função da estiagem ocorrida na segunda quinzena de maio, reverteu à tendência de queda na cotação da soja no início do mês, fazendo com que o preço médio do mês evoluísse apenas 1,33% no mercado futuro em abril, em Chicago. No milho, o comportamento em Chicago foi mais ou menos o mesmo da soja. A cotação do trigo, apesar da variação positiva de 0,43% em relação à média de abril, foi mais influenciada pelos bons estoques do cereal. Já as cotações do algodão, no mercado de Nova York, foram fortemente influenciadas pela ação dos fundos que venderam posições e geraram perdas. A cotação média do produto fechou o mês com queda de 2,85% em relação a abril. No ano, as cotações registraram elevação de 22,37%, sendo que as condições climáticas foram favoráveis ao algodão (tabela 1). Esses resultados podem ser observados nos gráficos abaixo:

 

            Ainda no caso das commodities negociadas na bolsa de Nova York, como é o caso do café arábica e do suco de laranja. No caso do suco de laranja as liquidações por parte dos fundos prevaleceram no mês de maio e deixaram como saldo, no geral, quedas nas cotações médias, em relação a abril. O café arábica entrou no ciclo sazonal de baixa devido à intensificação da colheita brasileira e à chegada do verão no Hemisfério Norte que apresenta níveis menores de consumo. Além disso, o mercado de clima para o café ainda não se manifestou devido às altas temperaturas observadas no Brasil, sem geada em maio. Dessa forma, a cotação média de maio para a segunda posição caiu 1,23%. Esses resultados podem ser observados nos gráficos abaixo:

            Para o açúcar, o quadro de déficit mundial atuou no sentido de alta, que foi compensado pelo início da safra brasileira, fazendo com que sua cotação média no mês tivesse uma ligeira alta de 0,58% em relação a abril.
            O café robusta, na bolsa de Londres, manteve forte tendência de alta, sustentada por estiagem no Vietnã e outros países da Ásia e atraso na safra brasileira no principal estado produtor, o Espírito Santo, devido a contínuas chuvas durante todo mês de maio. A cotação média do produto, da segunda posição, no mercado de futuros de Londres cresceu 10,45% em maio e 48,19% em 2005, constituindo-se nas maiores taxas observadas no mês e no ano (tabela 1).

            As cotações da borracha natural mantiveram-se em queda em maio, ainda que com leve crescimento em 2005, e continuam com pequena queda no acumulado de 12 meses. Essa queda da cotação, que participa na formação dos preços recebidos pelos produtores de borracha natural no Estado de São Paulo, associada à forte valorização do real no mês, sinaliza preços menores para os produtores paulistas em junho.

            No mercado de futuros do boi gordo na BM&F, verifica-se alta de 5,41% na cotação média em maio, da segunda posição, em dólar, em relação à média de abril. Mas, quando a cotação média em maio é em reais, de acordo com a BM&F, a alta é de apenas 0,22%, indicando estabilidade. No acumulado de 12 meses, observa-se alta de 10,39% nas cotações em dólar e queda de 9,49% em reais, mostrando o efeito da desvalorização da taxa de câmbio brasileira na cotação do boi gordo.
            O comportamento das cotações das cotações médias do boi gordo em reais e em dólar pode ser observado nos seguintes gráficos:

            Na agropecuária brasileira, em 2005, encontram-se duas situações díspares. No setor de carnes, os preços internacionais estão estáveis ou crescentes (caso da carne suína) e as exportações também crescentes. O mesmo ocorre nos setores de açúcar, álcool, café e suco de laranja, onde a valorização do real está fazendo um menor estrago. Nos segmentos de grãos e fibras, os mercados internacionais estão com preços em queda e os excedentes internacionais dificultam as exportações brasileiras de soja e derivados e algodão, onde a valorização do real está fazendo forte estrago, menos importante apenas do que o efeito do clima.
            É neste contexto que se deve discutir o futuro da nova safra de grãos e fibras de 2005/06, uma vez que os produtores de arroz, algodão, soja e milho estão enfrentando uma forte queda de receita devido às perdas de safra, custos elevados e preços dos produtos em queda. Isto está dificultando a liquidação dos empréstimos por parte dos produtores com o sistema bancário, as tradings, a agroindústria, os fornecedores e as cooperativas, bem como novos créditos futuros para o novo ciclo de produção.
            A situação é complexa. Por um lado, produtos como arroz e algodão apresentam-se com elevados estoques, mercados parados e preços em contínua queda. Por outro, a ação do Governo Federal para enfrentar o problema é lenta, além de utilizar instrumentos, como o PEP e a Opção Privada, que não estimulam os compradores a carregar estoques, tendo em vista as atuais taxas de juros e o nível elevado dos estoques. No caso desses produtos, a situação é desesperadora, pois as cotações do mercado estão abaixo dos preços mínimos, que estão muito defasados. E nem neste caso a ação das políticas públicas tem se efetivado.
            Também estão lentas as decisões de renegociação das dívidas dos setores atingidos pela estiagem, nas regiões Sul e Sudeste e no Mato Grosso do Sul, e a dificuldade de alocação de recursos novos tem feito com que poucos resultados estejam sendo obtidos. Além disso, vários setores que renegociaram suas dívidas em 2001, através dos Programas de Securitização e do Pesa (Programa de saneamento de ativos – grandes produtores), tentaram, de maneira oportunista, prorrogar as parcelas vencidas e a vencer no ano de 2005, tornando mais complexas e lentas as decisões do Governo Federal quanto à questão.
            Assim, os produtores estão atrasando as aquisições de sementes, pesticidas e fertilizantes e deixando de fazer novos investimentos. Isto indica que tudo vai atrasar no futuro ano agrícola, o que dificultará a aquisição dos insumos e apontará para menor utilização de insumos e mesmo redução da área cultivada na safra de grãos e fibras do ano agrícola de 2005/06. Com isso, pode prever-se uma safra igual ou levemente superior à deste ano, desde que as condições do clima se normalizem, contribuindo para recuperar a produção em algumas regiões que foram afetadas pela seca do início de 2005.

1) Artigo registrado no CCTC-IEA sob número HP-51/2005

Data de Publicação: 15/06/2005

Autor(es): Nelson Batista Martin (nbmartin@uol.com.br) Consulte outros textos deste autor