Abacaxi Classificado Beneficia Produtor E Consumidor

            O Brasil já tem normas modernas de comercialização do abacaxi (polpa amarela e branca), que possibilitam melhorar o ganho do produtor e as opções de preço e qualidade para o consumidor. A proposta foi elaborada pelo Grupo de Trabalho Nacional do Abacaxi, que reuniu produtores e técnicos dos estados de São Paulo, Pará, Bahia, Pernambuco, Tocantins, Minas Gerais e Paraíba. Os trabalhos foram coordenados pelo Centro de Qualidade em Horticultura (CQH) da Ceagesp.
            Pelas novas normas, o abacaxi é classificado, de acordo com características varietais de coloração, em frutos de polpa amarela (Smooth Cayenne ou havaiano) e de polpa branca (Pérola e Jupi). As classes estão relacionadas com o peso da infrutescência (medida da massa da infrutescência juntamente com sua coroa em quilos). As categorias de qualidade são definidas de acordo com a quantidade de defeitos (graves e leves) presentes no lote com o mesmo rótulo.
            As embalagens devem ser paletizáveis (tamanho tal que uma ou mais embalagens caibam num estrado de 1,00m x1,20m) e devem ser rotuladas com o nome do produtor ou beneficiador, endereço, município de origem, registro no Ministério da Agricultura, inscrição do produtor ou CGC do beneficiador, grupo/variedade, classe ou calibre, tipo ou categoria, peso e data de embalagem.
            As normas de classificação permitem o conhecimento ou caracterização do produto sem a sua presença física, abandonando assim o uso do pé-de-cabra no exame de caixa a caixa, segundo o coordenador do grupo de trabalho, Gabriel Bitencourt de Almeida, engenheiro agrônomo do CQH/Ceagesp. Com as especificações do produto para o comprador, será possível ofertar abacaxi pela Internet, telefone, leilões e por meio de contratos, além da automação (codificação, EDI-troca eletrônica de documentos, etc) e da reposição automática de estoques.
            A classificação de frutas e hortaliças começou em 1997 com o Programa paulista para a melhoria dos padrões comerciais e embalagens de hortigranjeiros, criado pelas câmaras setoriais de frutas e de hortaliças da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Os representantes das cadeias produtivas concluíram que os principais problemas do setor eram determinados por dois grandes gargalos: falta de classificação e padronização dos produtos e falta de embalagens adequadas.
            Devido ao grande interesse despertado em todo o País, em janeiro de 2000 a Câmara Setorial de Frutas aprovou o programa nacional, com a parte operacional sendo conduzida pela Ceagesp. 'O Estado de São Paulo é não só um grande exportador, mas também importador de produtos hortícolas frescos de outros estados. Muita gente de outros estados estava querendo abraçar a mesma bandeira, mas se sentia um pouco inibida pelo nome paulista do Programa', explica Gabriel Bitencourt.

Experiências de outros estados – A Bolsa de Hortigranjeiros, Cereais e Produtos Agropecuários do Estado de Pernambuco já vem comercializando abacaxi classificado há quatro anos. Mais conhecida como Bolsa do Comércio de Pernambuco, participou ativamente da elaboração das novas normas não só por meio do seu diretor, Cláudio Macedo, como também de seus clientes que são produtores de abacaxi em diferentes estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. 'Como as vendas são feitas à distância e não à vista dos frutos, há necessidade de uma linguagem comum entre o produtor e o comprador, que é estabelecida pela adoção de padrões comerciais de frutas', explica Cláudio Macedo.
            A diferença mais importante entre as normas antigas de classificação da Bolsa de Pernambuco e as novas normas é o acréscimo dos defeitos (graves e leves) a itens como tamanho, peso, coloração e variedade. Além disso, a classificação antiga foi substituída. Assim, o tipo Extra (peso acima de 1,8kg) passa a ser classe 4; o tipo A (entre 1,5kg e 1,8kg) torna-se classe 3; o tipo B (entre 1,3kg e 1,5kg) é a nova classe 2; e o tipo C (entre 900g e 1,3kg) equivale à classe 1.
            A Bolsa de Pernambuco vende a média de 12 milhões de frutos por ano, basicamente abacaxi Pérola ou Jupi (polpa branca), enviados por produtores de Tocantins, Pará, Maranhão, Rio Grande do Norte, Paraíba e Sergipe. Atualmente, está em negociação com produtores de Itaberaba, na Bahia.
            A empresa Agrícola Vale do Mangereba, localizada em Lucena a 45 km de João Pessoa (PB), comercializa, há mais de três anos, abacaxi na Bolsa do Comércio de Pernambuco. Segundo o sócio-gerente Frederico Tavares de Melo, a empresa já está se adaptando às novas normas, pois acredita que 'isso vai disciplinar o mercado'. As cerca de 15 pessoas, que trabalham no corte, carregamento (balaio) e transporte (caminhão) do abacaxi, passarão a fazer a classificação manual do produto. Ele acredita que a tendência é substituir a venda a granel (ainda predominante na região) por produto embalado.
            Em 1999, a empresa colheu 250 hectares do abacaxi Pérola, colocando no mercado 6,2 mil toneladas, das quais 4,5 mil toneladas na Bolsa de Pernambuco e o restante em fábricas de suco concentrado como Jandaia e Dafruta (Ceará), Parmalat (Bahia), Reprinte (Paraíba) e Bonsuco (Pernambuco). Em geral, são encaminhados para a indústria o abacaxi pequeno (tipo C) e os demais tipos que tenham defeitos, como queima acentuada de sol. No município de Miracema do Tocantins, Washington Dias já vendeu abacaxi classificado (polpa amarela) da área colhida na safra 1999/2000 (de 20 a 30 hectares). Entregou entre 400 e 500 mil frutas à plataforma do Carrefour em Osasco, grande São Paulo, quantidade que pretende aumentar para 650 mil frutas em 2001. O abacaxi foi embalado em caixa de papelão ondulado paletizável (seis frutos por caixa).
            Para Dias, a classificação apresenta as seguintes vantagens: evita o desconto no preço de frutas amassadas no transporte; aumenta a vida pós-colheita e o prazo de comercialização da fruta; permite fazer marketing do produtor; e garante diferencial no preço para o produtor (de 15 a 20% da classe 4 para a classe 3, por exemplo). Cinquenta por cento do abacaxi de Dias estão situados na classe 2, 40% na classe 4 e 10% na classe 3. Além disso, a classificação facilita a distribuição e amplia as possibilidades de comercialização sem afetar a qualidade.
            Dias e o irmão Robson são os dois únicos produtores de Miracema do Tocantins que vendem abacaxi classificado. Robson, que colhe área equivalente à do irmão, fornece para supermercados e Ceasas de Florianópolis (SC) e de Porto Alegre (RS).
            Washington Dias pretende substituir a classificação manual pela mecanizada já em 2001. Vai construir um packing-house para embalar a própria fruta e também a de terceiros. A receptividade tem sido tão boa que a plataforma do Carrefour em Osasco, que colocava no máximo um caminhão a granel por semana, está distribuindo seis vezes mais produto classificado. A demanda crescente cria oportunidade para novos produtores adotarem a classificação. É o caso da Central de Produtores de Abacaxi de Miracema e Região (Cepamir), da qual Dias é vice-presidente, que foi criada para melhorar as condições de comercialização de 17 produtores de abacaxi.
            No município paulista de Guaraçaí, o produtor Shoji Korin prepara-se para adotar as novas regras de classificação. Com área colhida de 24 hectares, ele entregou, no passado, 900 toneladas de abacaxi polpa amarela a granel para ceasas do Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo.
            Korin é também diretor da Associação dos Produtores de Abacaxi do Município de Guaraçaí (Apamg), que reúne 110 associados da região. Para ele, os produtores da região estão perdendo clientes, como supermercados e cozinhas industriais. É o mesmo que perder dinheiro duas vezes, uma vez que o produtor recebe menos pelo produto a granel entregue ao atacadista e ainda sofre desconto no preço por causa do alto nível de perdas no transporte, principalmente do produto maduro. Korin revela que, recentemente, teve de recusar convite do gerente regional do Banco do Brasil para participar de um leilão porque o seu produto não é classificado.

Classe: relacionada ao peso da Infrutescência.

Para os Abacaxis do Grupo de Polpa Amarela


 

Classe
Peso da Infrutescência (kg)
1
Maior que 0,900 até 1,100
2
Maior que 1,400 até 1,400
3
Maior que 1,400 até 1,700
4
Maior que 1,700 até 2,100
5
Maior que 2,100 até 2,500
6
Maior que 2,500


 

Para Abacaxis de Polpa Branca


 

Classe
Peso da Infrutescência (kg)
1
Maior que 0,900 até 1,300
2
Maior que 1,300 até 1.500
3
Maior que 1,500 até 1,800
4
Maior que 1,800

É tolerada uma mistura de 10% de classes diferentes da especificada no rótulo, desde que pertencentes às classes imediatamente superior e/ou inferior.
 

 

Data de Publicação: 21/06/2000

Autor(es): José Venâncio De Resende (venancio@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor