Perspectivas para a safra de feijão das águas 2003/04 no Estado de São Paulo

            O levantamento de campo realizado no final de junho pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) 1 estima produção brasileira de feijão muito promissora na safra agrícola 2002/03 (aumento de 7,6%) e ligeira expansão de área (0,5%), em relação ao ano anterior, considerando as três safras anuais (águas, seca e inverno). Na primeira safra de 2002/03, foram produzidas 1,24 milhão de toneladas (-4,8%) , decréscimo esse que foi mais que compensado pelo crescimento de 22,9% na segunda safra (que alcançou 1,26 milhão de toneladas). A terceira safra, cuja colheita está em andamento, tem uma produção estimada de 675 mil toneladas, com crescimento esperado de 8,3%.
            No Estado de São Paulo, foram plantados 218,7 mil hectares de feijão na safra 2002/03, dos quais 72,7 mil hectares de feijão das águas, 78,4 mil hectares de feijão da seca, 32,7 mil hectares de feijão de inverno sequeiro e 34,9 mil hectares de feijão de inverno irrigado (tabela 1).

            Os principais Escritórios de Desenvolvimento Rural (EDRs) responsáveis pela produção de feijão das águas são Itapeva, Avaré e Itapetininga, no Sudoeste Paulista, devido às condições edafoclimáticas favoráveis, como boa precipitação, fertilidade do solo e topografia, além da proximidade do principal mercado consumidor e distribuidor do grão, a cidade de São Paulo. Apesar disso, recentemente, o uso intensivo do solo com baixa rotação das culturas e a umidade relativa alta, típica da região, têm gerado problema com a proliferação de mosca branca, chegando a desestimular alguns produtores.
            Em termos reais (valores deflacionados para julho/2003 pelo IPCA), os preços médios mensais recebidos pelos produtores paulistas apresentam grande amplitude de mínimos e máximos relativos. No período 1996-2003, o último pico verificado em abril deste ano, com R$139,54 a saca de 60 quilos, deveu-se aos problemas climáticos enfrentados na região Nordeste, principalmente na Bahia, com o plantio da primeira safra. Essa alta foi seguida de queda contínua nos preços, em virtude da superprodução da safra da seca (segunda safra), em termos nacionais (figura 1).

            Os preços médios diários recebidos pelos produtores paulistas durante agosto de 2003 ficaram no patamar de R$63,00 a saca, enquanto o preço modal diário do Carioquinha tipo 1 na cidade de São Paulo variou de R$72,00 a R$ 76,00/saca. Em setembro e outubro, o nível de preços diários recebidos pelos produtores tende a crescer, principalmente dos grãos novos e de boa qualidade, devido à menor proporção, em termos nacionais, da terceira safra de feijão (21% da safra anual), o que acarreta, normalmente, escassez tanto quantitativa quanto qualitativa do grão nesses meses (figura 2).

            Nos últimos seis anos, a área cultivada com o feijão das águas paulista oscilou em torno de 73,3 mil hectares, tendo sido plantados 72,7 mil hectares em 2002/03, segundo o levantamento IEA/CATI (figura 3). Essa oscilação na área depende não somente da infra-estrutura já existente para a produção, como também da expectativa de lucro com a cultura por parte dos produtores, em função das condições climáticas (sobretudo precipitação pluviométrica) na época de plantio (agosto a outubro), dos preços recebidos pela produção na safra anterior e nos meses recentes, da lucratividade das culturas que concorrem pela mesma área (principalmente milho e soja), da disponibilidade de crédito e de insumos utilizados, etc. A súbita valorização na cotação internacional do milho no início deste mês, após o anúncio pelo Departamento da Agricultura dos Estados Unidos (USDA) 2 da redução na estimativa de produção de milho americano, pode influenciar o aumento da área destinada para esta cultura em detrimento da de feijão.

            Nesse panorama, a perspectiva para a safra das águas 2003/04, no Estado de São Paulo, é de manutenção da área cultivada. Os níveis excepcionais de preços recebidos praticados, no primeiro quadrimestre deste ano, não são, provavelmente, motivo suficiente para animar os produtores, dada a queda livre nos preços ocorrida em seguida, até o presente momento, o que indica grande incerteza no mercado de feijão. Apesar disso, vale a pena lembrar que, desde junho de 2002 até julho de 2003, os preços médios recebidos pelos produtores paulistas ficaram acima da média histórica do período 1996-2003, o que poderá impedir decréscimo na área de plantio em condições normais.

1 CONAB: www.conab.gov.br

2 USDA: www.usda.gov

Data de Publicação: 12/09/2003

Autor(es): Ikuyo Kiyuna (ikuyo@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor
Humberto Sebastiao Alves (hsalves@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor
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