Caqui paulista de Pilar do Sul: experiência no mercado externo

            A produção de base familiar vem ganhando importância na implementação de políticas públicas no espaço rural brasileiro. O papel que desempenha na agricultura permite estabelecer um desenvolvimento sócio-econômico relativamente mais equilibrado e sustentado.
            Não se pode generalizar a idéia de que apenas os grandes empresários são bem sucedidos. Produtores familiares também podem chegar lá. É preciso saber explorar e aperfeiçoar suas habilidades, gerenciar o trabalho, a propriedade e/ou a produção, buscar conhecimentos e a satisfação de seus clientes com aquilo que produz, independente do porte do imóvel.
            Uma unidade produtiva pode constituir-se tanto numa empresa agropecuária quanto numa exploração familiar, que, neste caso, apresenta variações com características fortemente influenciadas pelo contexto econômico em que se desenvolvem. Assim, o produtor familiar pode ser tanto aquele com recursos insuficientes que se dedica à produção de subsistência quanto empresários familiares – proprietários de terra e dos equipamentos e que faz uso, também, do trabalho de terceiros – em condições de alavancar recursos e de se manter no mercado.
            No caso específico do município de Pilar do Sul, na região sudoeste do Estado de São Paulo, a produção de alimentos tem grande importância econômica, mas no processo de modernização agrícola pequenos e médios produtores ficaram alijados dos benefícios dos pacotes tecnológicos adotados. Aqueles que conseguiram manter-se, mais recentemente têm buscado novas alternativas de renda e emprego. Dadas as condições favoráveis de clima, solo, infra-estrutura, mão-de-obra e proximidade com os grandes centros consumidores, a fruticultura vem representando importante atividade de diversificação local.
            É importante destacar que, em muitas atividades agrícolas, os sistemas de produção denominados modernos não são poupadores de trabalho manual. Atente-se para as explorações de frutas e hortaliças, geralmente conduzidas em sistemas de produção de alta tecnologia e que são grandes absorvedoras de mão-de-obra, dadas suas características peculiares, por demandar tratos especiais na condução de cultivo. Além disso, agregam maior valor à produção do que os grãos, por exemplo.
            Nesta análise, evidenciam-se fundamentalmente os desafios enfrentados e as estratégias adotadas por um produtor familiar de Pilar do Sul, imigrante japonês, na sua trajetória como produtor de feijão e hortaliças, depois frutas – especialmente o caqui – até ganhar o mercado externo como empresário agrícola.

A experiência de Pilar do Sul

            A cultura do caqui, embora contribua com pequena parcela no valor total da produção agropecuária, tem sido considerada uma atividade bastante promissora ao conseguir sua inserção na pauta recente de exportações brasileiras, com destaque para São Paulo.
            De acordo com o IBGE (Produção municipal agrícola, 2000) 1, o caqui do Estado de São Paulo ocupava a primeira posição na produção em 2000, com mais de 50% do total nacional. Pelas estimativas do IEA (2002) 2, a produção deste ano foi de 3.207 mil caixas de 26 quilos contra 3.195 mil caixas, em 2001. A maior produção localiza-se na região de Mogi das Cruzes (59%), seguida do Sudoeste (22%), onde o município de Pilar do Sul se destaca como o primeiro produtor da região.
            A estimativa de produção para Pilar do Sul foi de 877 mil caixas de 3,2 kg, em 2001, chegando em 2002 a 975 mil caixas – o equivalente a 120 mil caixas de 26 kg. O cultivo do caqui vem se adequando ao atual contexto de diversificação de atividades na região Sudoeste paulista, como mais uma alternativa de aumento de renda e de geração de emprego.
            A exportação do caqui em Pilar do Sul, que é recente, teve início graças a uma série de atitudes individuais de fruticultores, aliada às recentes políticas setoriais, de âmbito federal e estadual, que têm alavancado a fruticultura nacional. Neste caso particular, as iniciativas pessoais e o caráter empreendedor do produtor analisado vêm desempenhando importante papel no êxito do agronegócio exportador do caqui.
            De imigrante em fazendas de café a produtor de hortaliças e finalmente de frutas, esse agricultor conta hoje com 45 alqueires cultivados com uva, ameixa, atemóia, nêspera e caqui (este somando 11 alqueires). Trabalha com meeiros – famílias residentes – e mensalistas contratados. Cada pomar tem 1 encarregado e recebe orientação constante de técnicos e/ou pesquisadores, inclusive vindos do Japão. Essas frutíferas, além da colheita manual, exigem tratos culturais e tratamento pós-colheita que demandam mão-de-obra o ano inteiro, representando garantia de emprego e renda para parcela da população da região.
            Em 1999, por iniciativa dele, e de dois outros produtores da região, foi formada a Associação Paulista dos Produtores de Caqui (APPC) 3, à qual se dedicou ativamente. A experiência desse produtor no comércio de frutas – como comprador de outras regiões e vendedor direto aos supermercados e exportadores – foi peça fundamental para reunir 120 associados, de vários municípios, com a finalidade de se organizarem e ocupar espaço no mercado externo.
            Nessa ocasião, o produtor em apreço foi procurado para exportar uva para Argentina, EUA, Canadá e Europa, a partir de um trabalho de marketing que incluía o caqui no rol dessas exportações. Na Alemanha, através de escritórios de brasileiros, o caqui é distribuído aos outros países da Europa. Particularmente, o produtor-exportador sob análise enviou, em 2001, cerca de 15 mil caixas de 3,2 kg para a Alemanha e o Canadá.
            Em 2002, passou a atuar de modo independente, desligando-se da APPC e ampliando seus negócios externos, inclusive com marketing, junto aos consumidores canadenses, para a aceitação do caqui de maior tamanho – tipos 8 a 16. Além da produção própria, nesse ano, comprou fruta de 10 produtores familiares de Pilar do Sul e de Caxias do Sul (RS) para a remessa ao exterior. No final da safra, contabilizou a exportação de 52 mil caixas de 3,2 kg para o Canadá e países da Europa. Para a safra de 2003, ele estima um embarque em torno de 150 mil caixas. Revela-se um importante começo na conquista do mercado internacional, com caqui de qualidade e padrão.
            O caqui exportado – variedades fuyu, kioto, rama forte e giombo – passa por rigorosa fiscalização sanitária, sendo observada também a pontualidade da entrega nos países compradores. Para se manter no agronegócio exportador, esse produtor vem se apoiando numa rígida logística, pois um produto perecível como o caqui exige um prazo – entre colheita e balcão do supermercado – de somente 10 dias. Nesse prazo, ele planeja a colheita nas propriedades, o tratamento e embalagem da fruta (em paking house próprio) e o agendamento do espaço aéreo para o transporte.
            É imprescindível que todas essas etapas sejam sincronizadas. O pessoal envolvido com a produção agrícola tem que estar ciente da responsabilidade assumida, que, neste caso, vai 'além da porteira'. Além disso, esse produtor-exportador acompanha os preços - hora a hora - pela Internet, escolhendo o melhor momento para negociar o câmbio e realizar sua receita.
            Ainda que incipientes, as recentes exportações do caqui complementaram a comercialização do mercado interno, uma vez que a preferência do consumidor estrangeiro é pela fruta pequena e média e a do consumidor interno é por fruta maior. Ressalte-se que o melhor preço alcançado no mercado interno representa a metade do que se recebe lá fora. Inclui-se nessa diferença de rentabilidade auferida as perdas ocorridas na comercialização interna do caqui, que chegam a representar 30%, enquanto nas exportações se reduzem a apenas 2% da fruta comercializada.
            Às iniciativas individuais somaram-se ações governamentais importantes. Vale citar o Programa de Apoio à Fruticultura - PROFRUTA (2001) 4, , do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que destinou recursos creditícios para a construção do atual packing-house do produtor sob análise. Além disso, o Sistema Integrado de Comércio Exterior (SISCOMEX) vem atuando de forma a desburocratizar o acesso às exportações, tanto para pessoa física quanto jurídica, e a Agência de Promoções às Exportações (APEX), criada em 1997, também tem procurado facilitar o aumento e a diversificação das exportações brasileiras (GAE, 2003)5 .
            Adicionalmente, a produção de caqui conta com o Programa Paulista para a Melhoria da Padronização e da Embalagem de Hortigrangeiros, sob a égide da CEAGESP, vinculada ao Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA), que tem garantido a transparência na comercialização e atuado rigorosamente na qualidade da fruta, imprescindível à exportação de produtos in natura (Almeida, 2001)6.
            Mais recentemente, outras ações públicas e privadas têm sido implementadas no âmbito do comércio internacional para estimular a exportação de pequenas e médias empresas dos diversos setores da economia. São os casos dos Correios, através do Programa 'Exporta Fácil' desde 2001; do Programa 'BrazilTradeNet' do Ministério das Relações Exteriores; do Grupo Santander Banespa com linha de financiamento e promoção da exportação no 'Programa Exportar' ; do Banco do Brasil com os programas 'de Geração de Negócios Internacionais (PGNI)' e 'de Apoio às Exportações (PAE)' e outros serviços; da Câmara de Comércio do Mercosul e Américas e do Programa paulista 'CERICEX – Conselho Estadual de Relações Internacionais e Comércio Exterior – recém-criados (GAE, 2003) 7.
            No caso específico da fruta, o SEBRAE-SP8 deu início ao Programa Setorial Integrado (PSI) do Caqui do Estado de São Paulo, que se encontra na fase de sensibilização, agrupamento de entidades parceiras e capacitação de produtores. O PSI tem como meta a formação de consórcios de exportação, com o objetivo de promover o planejamento estratégico das empresas para introduzi-las no mercado externo.
            Essa análise mostra que iniciativas individuais são relevantes para ocupar espaço no mercado internacional. Porém, é preciso o apoio de ações governamentais para o êxito do processo. Essa série de políticas e serviços disponibizados para as pequenas e médias empresas deve colaborar para a entrada definitiva no mercado internacional dos produtores paulistas de caqui. Nesse caso, os produtores familiares de Pilar do Sul podem almejar objetivos mais audaciosos, propiciando emprego e renda – que levem à dinamização da economia local – e divisas para o país.

1 IBGE: www.ibge.gov.br
2Banco de Dados 2002, disponível neste site
3APPC: www.todafruta.com.br
4 PROFRUTA. Programa de apoio à fruticultura. 2001. Disponível em: www.bndes.gov.br/produtos/agropecuario/profruta.asp
5 GAE – Grupo de Apoio à Exportação – ITAL. In: Seminário 'Exportação de Alimentos via Pequenas e Médias Empresas', Campinas–SP, 10-11/09/03. 158p. 2003. Disponível em: www.ital.sp.gov.br
6ALMEIDA, Gabriel B. Programa brasileiro para a melhoria dos padrões comerciais e embalagens de hortigranjeiros. 2001 (Mimeo.).
7 GAE – Grupo de Apoio à Exportação – ITAL. In: Seminário 'Exportação de Alimentos via Pequenas e Médias Empresas', Campinas–SP, 10-11/09/03. 158p. 2003. Disponível em: www.ital.sp.gov.br
8 SEBRAE-SP: www.sebraesp.com.br

Data de Publicação: 01/10/2003

Autor(es): Nilda Tereza Cardoso De Mello (nilmello@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor
Elizabeth Alves e Nogueira (enogueira@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor
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