Emprego Formal no Setor Agropecuário Paulista Permaneceu em Tendência de Queda em 2018


 

Os dados da Relação Anual de Informações Sociais1 divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) para 2018 apontaram crescimento de apenas 0,8% no total dos postos de trabalho formais brasileiros em relação ao ano anterior, cerca de 349 mil novos empregos no território nacional distribuídos entre os cinco setores econômicos2. Essa pequena recuperação deveu-se principalmente ao setor de serviços que contribuiu com 98% no aumento dos empregos em 2018. Destaca-se que, dentre os 46,6 milhões de empregos formais, o setor de serviços teve participação de 56,4% do total em 2018.

Ainda que com número menor de novas vagas, os setores da construção civil e indústria também apresentaram crescimento, com cerca de 28 mil novas vagas; e em sentido contrário, o setor agropecuário e o de comércio perderam cerca de 10 mil vagas de emprego cada um (Tabela 1). Em decorrência de instabilidades política e econômica, agravadas pela paralisação do setor de transporte em maio de 2018, os setores caminharam com passos lentos na geração de emprego e renda e, no Estado de São Paulo, a situação não foi diferente.

 

 

O Estado de São Paulo, responsável por 28,4% do total de empregos formais brasileiros, apresentou também pequeno crescimento, apenas 0,9%, de novas oportunidades para o trabalhador em 2018. Três setores econômicos, indústria, comércio e agropecuária juntos perderam cerca de 37 mil postos de trabalho e, assim, o crescimento se deveu aos avanços de 2,0% no setor de serviços, principalmente, e de 2,7% na construção civil. Apesar desse acréscimo, São Paulo ainda está longe de atingir o patamar alcançado em 2014, ápice em dez anos com 14,1 milhões de empregos formais (Figura 1).



Em 2018, quatro atividades econômicas agropecuárias concentraram 56,7% dos empregos formais (cultivo de cana-de-açúcar, cultivo de laranja, criação de bovinos e atividades de apoio à agricultura) e todas elas perderam empregos em 2018, um total de 12.960 vagas. O setor agropecuário, considerando todas as outras atividades, fechou o ano de 2018 com um deficit de 13.555 postos de trabalho formais em relação ao ano de 2017 (Tabela 2).

 

 

O cultivo de cana-de-açúcar que, em outros tempos era responsável por quase 100 mil empregos formais no campo, hoje ainda é a principal atividade em contratações, mas com 60.677 empregos formais, 19,2% do total no setor agropecuário. Alterações tecnológicas no sistema produtivo com a substituição do trabalho manual pelo mecanizado em decorrência de marcos legais para mitigar os efeitos da emissão de gases de efeito estufa provenientes das queimadas levaram a essa grande redução de trabalhadores nos últimos dez anos3. O recuo observado em 2018 com 4.714 empregos formais em 2018 pode ser explicado pela queda de 1,7% na produção de cana-de-açúcar no Estado entre as safras 2017 e 2018, segundo dados de previsão de safra do Instituto de Economia Agrícola3.

O cultivo de laranja, segunda atividade em empregos, 14,8% do total, apresentou declínio em 4,8% correspondendo na eliminação de 2.365 vagas. Dados do Instituto de Economia Agrícola evidenciaram queda de 200 mil toneladas de laranja entre os anos de 2017 e 20184, o que pode ser um indicativo da redução de mão de obra na colheita dessa cultura, etapa do sistema produtivo que mais demanda trabalhadores.

Para a criação de bovinos, os números do MTE também indicaram perda de cerca de 2 mil empregos, recuo de 4,2% em relação ao ano anterior. O mesmo comportamento de queda foi observado no número total de cabeças em São Paulo pelos dados do IEA, 189 mil cabeças nos rebanhos e queda de 6,2%, o que pode ter implicado na redução dos empregos formais no Estado4.

As atividades de apoio à agricultura que correspondem à terceirização de mão de obra para os estabelecimentos rurais apresentaram queda de 11,1%, o que está de acordo com as outras duas analisadas, cana-de-açúcar e cultivo de laranja, uma vez que a terceirização pode ter atendido essas duas atividades agropecuárias.

Observando-se a distribuição dos empregos formais nas 16 Regiões Administrativas do Estado de São Paulo, houve redução dos empregos em 10, das quais se destacam principalmente as de Bauru e Marília, com perdas de 4.165 e 3.126 empregos formais, respectivamente (Tabela 3). Em ambas as regiões, a principal atividade econômica que contribuiu para essas perdas foi o cultivo de cana-de-açúcar, com eliminação de 2.442 empregos em Bauru e 2.307 em Marília.

As regiões com crescimento em número de postos de trabalho formais foram observadas em Sorocaba com o cultivo de laranja. As demais regiões com aumento nos empregos tiveram desempenho variado entre as atividades econômicas agropecuárias, por exemplo, atividades extrativistas originadas em florestas nas regiões de São José dos Campos e Franca.

Pelos dados analisados, o ano de 2018 não teve um bom desempenho, haja vista o baixo crescimento de empregos formais nos cinco setores econômicos de São Paulo e também dentro próprio setor agropecuário; segundo noticiado, o trabalho informal tem crescido nos últimos meses, revertendo o processo de desemprego5.


             

Para 2019, existe uma certa expectativa de melhora nos dados da RAIS, pois as informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados6 que registra a movimentação de admissões e desligamentos mensalmente nos setores econômicos brasileiros apontou que, até setembro de 2019, o setor agropecuário apresenta saldo positivo de empregos formais totalizados em 29.326 postos de trabalho. No entanto, o período de grandes movimentações no setor agropecuário ocorre até o mês de julho com a colheita de diversas culturas e, assim, após este mês, as contratações diminuem e intensificam-se os desligamentos até dezembro, o que diminuirá esse saldo acumulado.

 

1MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO - MTE. Relação Anual de Informações Sociais. Programa de disseminação das estatísticas do trabalho (PDET). Brasília: MET. Disponível em: http://pdet.mte.gov.br/. Acesso em: nov. 2019.

 

2Ministério do Trabalho e Emprego – MTE. Rais: emprego formal chega a 46,63 milhões em 2018. Brasília: MET. Disponível em:  http://trabalho.gov.br/component/content/article?id=7299. Acesso em: 17 out. 2019.

  

3FREDO, C. E.; CASER, D. V. Mecanização da Colheita da Cana-de-açúcar Atinge 90% na Safra 2016/17. Analises e Indicadores do Agronegócio, São Paulo, v. 12, n. 6, jun. 2017. Disponível em: http://www.iea.sp.gov.br/out/LerTexto.php?codTexto=14308. Acesso em: nov. 2019.

 

4INSTITUTO DE ECONOMIA AGRÍCOLA. Banco de dados. São Paulo: IEA, 2019. Disponível em: http://www.iea.sp.gov.br/out/bancodedados.html. Acesso em: out. 2019.

5ZYLBERSTAJN, H. Trabalho formal pode voltar a crescer em breve. Estadão. São Paulo. ago. 2019. Disponível em: https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,trabalho-com-carteira-pode-voltar-a-crescer-em-breve-diz-zylberstajn,70002989766. Acesso em: 04 nov. 2019.

 

6MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO - MTE. Cadastro Geral de Empregados e Desempregados. Programa de disseminação das estatísticas do trabalho. 

 

Palavras-chave: emprego formal, Relação Anual de Informações Sociais, setor agropecuário, São Paulo.


Data de Publicação: 11/11/2019

Autor(es): Carlos Eduardo Fredo (cfredo@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor
Silene Maria de Freitas (silene@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor