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Carne Bovina: comportamento dos preços em 2010

            A bovinocultura de corte é uma das principais atividades agropecuárias no Estado de São Paulo. Representando o segundo produto no Valor da Produção Agrícola (VPA) paulista, é superada somente pela cultura da cana-de-açúcar. A carne bovina correspondeu a 9,9% do VPA estimado do Estado no ano de 2010 e, segundo a estimativa preliminar do Instituto de Economia Agrícola (IEA)1, gerou um valor estimado de R$4,9 bilhões dos R$49,5 bilhões totalizados no Estado. Em virtude dos aumentos das cotações do boi gordo no segundo semestre do ano, esta representatividade deve aumentar quando for divulgado o VPA definitivo para o ano de 2010.
 

            A carne bovina é um item de grande importância para o consumidor, e seu peso no custo da alimentação sofre grande influência das variações de preços da cadeia produtiva.
 

            Para esse estudo, entende-se a sequência de produção da carne bovina (Figura 1) como um conjunto de agentes interativos, que são os fornecedores de insumos, os sistemas de produção da pecuária, as indústrias de abate e transformação, os distribuidores atacadistas e varejistas, o mercado externo e os consumidores finais do mercado interno.

 

Figura 1 - Síntese da Sequência de Produção da Carne Bovina.

 

Fonte: PINATTI, E. Carne bovina: queda de preços não chega ao varejo em 2005. São Paulo, Análises e Indicadores do Agronegócio, v. 1, n. 1, jan. 2006, Disponível em: <http://www.iea.sp.gov.br/out/verTexto.php?codTexto= 4538>. Acesso em: 14 fev. 2011.


            Na figura 1, a letra A representa a fase de comercialização do boi gordo; B representa a fase de comercialização no atacado (traseiro, dianteiro e ponta de agulha de bovinos); e C representa a fase de comercialização no varejo (cortes de carne bovina in natura).
 

            Entremeada em um ciclo de desvalorização no valor da arroba do boi gordo e de redução da produção em 2009, houve uma variação negativa de 4,6% na produção e de 4,1% no preço médio da arroba na comparação com o ano anterior (R$81,06 em 2008 para R$77,17 em 2009)2.
 

            A figura 2 apresenta o comportamento, em 2010, dos preços médios mensais recebidos pelos pecuaristas na comercialização do boi gordo, dos preços praticados no mercado atacadista3 (traseiro, dianteiro e ponta de agulha de bovinos) e dos preços no âmbito do mercado varejista4 (cortes de carne bovina in natura) na cidade de São Paulo. Os coeficientes de variação (CV%) foram de 13,2% para o boi gordo, de 12,4% para o atacado e de 9,6% para o varejo, apresentando uma variação maior que as observadas nos anos anteriores.

 

Figura 2 - Preços médios mensais no Estado de São Paulo, 2010

 

Fonte: Elaborada pelos autores com base em INSTITUTO DE ECONOMIA AGRÍCOLA – IEA. Banco de dados. São Paulo: IEA, 2010. Disponível em: <http://www.iea.sp.gov.br>. Acesso em: 14 fev. 2011.


            No primeiro semestre de 2010, visualizam-se uma estabilidade nos preços da carne bovina no varejo e aumentos nos outros dois elos (atacado e produtor); há em junho um aumento acumulado semestral de 0,8% no varejo, 6,3% no atacado e 14,4% no boi gordo em relação a dezembro de 2009 (Figura 3). Neste período, a redução dos animais disponíveis para abate, fruto tanto do ciclo plurianual, que reduziu a capacidade de reposição de boi gordo no mercado, quanto do ciclo sazonal, que com a estiagem característica do inverno no centro-sul do País diminui a disponibilidade de pastagens e aumenta os custos do pecuarista, levaram a esta maior elevação do preço recebido pelos criadores.

 

Figura 3 - Variação Acumulada¹, São Paulo, 2010.

 


 

¹Variação acumulada, tendo dezembro/2009 como referência. Assim, pode se avaliar com mais clareza o comportamento dos preços no período.

Fonte: Elaborada pelos autores com base em: INSTITUTO DE ECONOMIA AGRÍCOLA – IEA. Banco de dados. São Paulo: IEA, 2010. Disponível em: <http://www.iea.sp.gov.br>. Acesso em: 14 fev. 2011.

 

            A partir de junho, os preços da carne bovina nos três níveis apresentaram significativa alta: de janeiro a dezembro o boi gordo fechou com acréscimo de 42,5%; o atacado com 30,5% e o varejo com 29,0%. Nesse intervalo, de junho a novembro se configuraram as maiores variações positivas: os preços da carne bovina nos três níveis apresentaram significativa alta. O boi gordo, de R$80,47 a arroba em junho passou a valer R$109,25 em novembro (reajuste de 35,5%); no atacado, o preço médio em junho dos quartos da carcaça estava em R$5,14/kg, chegando a valer R$6,94 (reajuste de 35,0%) em novembro. No varejo, o preço médio dos cortes subiu de R$9,82/kg em junho para R$12,43/kg em novembro: um reajuste de 26,6%.
 

            Em dezembro, com uma oferta melhor de animais prontos para o abate, fruto da melhoria das pastagens (ciclo sazonal), a tendência de alta se reverteu para os produtores e para o atacado: nesse mês o boi gordo apresentou uma redução de preços de 5,8%, valendo R$102,95 a arroba; no atacado o declínio foi de 9,1%, fechando o ano em R$6,31/kg. Já o varejo, mantendo a tendência de alta devido à elevação da demanda de final de ano (13º salário e festas), apresentou uma valorização em dezembro de 1,13%, chegando a valer R$12,57/kg.
 

            Para os pecuaristas, o ano de 2010 somente não foi melhor em virtude dos aumentos consideráveis nos custos de produção. Para os frigoríficos não foi um mau ano, pois os acréscimos na cotação do boi gordo não impediram que estes conseguissem repassar grande parte destes aumentos.
 

            Já o varejo foi obrigado a 'queimar' a gordura de suas margens, não podendo repassar todos os aumentos dos demais elos, já que o consumidor não aceita pagar reajustes tão altos e o varejo tem margem para adequar os preços praticados à renda e à demanda do consumidor. Contudo, no último mês do ano, conseguiu manter as altas com o aquecimento da demanda, apesar dos demais elos já terem encerrado suas sequências de reajustes.
 

            Para o consumidor foi um ano ruim em consequência do reajuste aplicado pelo varejo que, mesmo reduzindo suas margens, repassou as majorações advindas do atacado e do produtor. Dessa forma, em um ano em que os alimentos subiram 10,4% e a inflação foi de 5,8% para São Paulo - dados do IPCA (este valores ficaram próximos aos da média nacional)5 -, o consumidor paulista teve que pagar 29% mais caro pela carne bovina.
 

            Os fatores que influenciaram este comportamento dos preços em 2010 foram: a redução da oferta de boi gordo para o abate em virtude do elevado abate de fêmeas entre 2005 e 2007; a menor disponibilidade e o encarecimento dos bezerros para reposição; seca intensa na última entressafra e atraso na recuperação das pastagens com a ampliação do período de falta de animais para o abate; e a diminuição drástica dos investimentos feitos pelos pecuaristas diante dos preços baixos dos anos anteriores. Além disso, igualmente importante, houve a redução nos confinamentos de engorda neste ano em função da diminuição da relação de troca entre boi gordo/boi magro, boi gordo/garrote e boi gordo/bezerro e da expectativa com relação a preços baixos da arroba do boi gordo, o que indicava sua inviabilidade econômica. Por outro lado, o que de certa forma atenuou este cenário revertendo as perspectivas desanimadoras foram a demanda firme pelo mercado externo da carne bovina brasileira e o consumo aquecido no mercado interno, determinantes para o comportamento dos preços em 2010.
 

            Assim, mesmo superando as expectativas de preços desestimulantes apontadas no final de 2009, pode-se dizer que o ano de 2010 foi um ano de alta oriunda do ciclo pecuário plurianual, maximizado pela seca intensa e pela demanda aquecida. Para 2011, espera-se a manutenção do mesmo comportamento do ano passado, mas sem as altas acentuadas no segundo semestre.
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1TSUNECHIRO, A. et al. Valor da produção agropecuária do Estado de São Paulo em 2010: estimativa preliminar, Informações Econômicas, São Paulo, v. 40, n. 11, nov. 2010.
 

2TSUNECHIRO, A. et al. Valor da produção agropecuária do Estado de São Paulo em 2009, Informações Econômicas, São Paulo, v. 40, n. 05, mai. 2010.
 

3Para o cálculo do preço da carne bovina no atacado, adotou-se a relação de quartos da carcaça: traseiro=48%, dianteiro=39% e ponta de agulha=13%, que são os mais comumente relatados na literatura.
 

4Para o cálculo do preço da carne bovina no varejo, o IEA adota as seguintes ponderações: acém=14,9%, alcatra=7,7%, capa de filé=2,6%, contra-filé=9,0%, costela=15,0%, coxão duro=10,9%, coxão mole=10,3%, filé mignon=2,3%, lagarto=3,2%, músculo=2,6%, patinho=6,4% e peito=14,9%.
 

5INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – IPCA. Rio de Janeiro: IBGE. Disponível em: <http://www.sidra.ibge.gov.br/bda/precos>. Acesso em: 15 fev. 2011.
 

Palavras-chave: pecuária de corte, carne bovina, boi gordo, preços.

 

 

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Data de Publicação: 01/04/2011
Autor(es): Eder Pinatti (pinatti@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor
Danton Leonel de Camargo Bini (danton@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor