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Mercado Futuro do Café: tênue alavancagem cambial da cotações

Após a decisão do Federal Reserve de elevar as taxas de juros de longo prazo dos TBond’s estadunidenses, seguiu-se escalada de valorização do dólar em âmbito global. Países com maiores constrangimentos fiscais e/ou de balança de pagamentos foram os impactados pela desvalorização de suas moedas, culminando com o pedido de socorro financeiro da autoridade argentina ao FMI. O Brasil, ainda longe da situação fiscal portenha, exibe fortes incertezas com progressivo incremento da dívida pública e deficits fiscais de expressiva magnitude. Assim, em maio de 2018, houve expressiva desvalorização do real, amplificando o movimento dos investidores nos contratos futuros negociados na B3 (Figura 1).


 

A oferta de títulos futuros em dólar, por parte do Banco Central, não foi capaz de deter a alta da moeda no mercado que manteve tendência de valorização. Ainda que o país conte com expressiva reserva, a desconfiança por parte dos investidores do mercado, de que o governo se encontra esgarçado e enviesado por orientações de cunho populista (tabelamento de fretes e mudança no modelo de precificação dos combustíveis), fatalmente trará consequências nefastas para a economia já em situação de beirada de abismo.

Em contrapartida, ao menos no curto prazo, os exportadores de commodities são os maiores beneficiários dessa acentuação da desvalorização cambial. O ganho de competitividade frente aos principais concorrentes internacionais pode permitir a consolidação e expansão da presença de produtos brasileiros nas carteiras de compras dos importadores. No caso do café verde brasileiro, tomando-se em conta essa safra ser ciclo de alta, demanda internacional firme para o produto pode dar sustentação aos preços em real, embora não os alavanque demasiadamente em dólar, pois se prevê recomposição dos estoques.

As cotações do mercado futuro de café arábica registradas na Bolsa de Nova York contabilizadas, em maio de 2018, refletem parcialmente a intensidade do movimento de desvalorização cambial brasileiro. Entre as primeira e terceira semanas do mês, as médias das cotações futuras semanais exibiam baixa consistente. Na posição de dezembro de 2018, por exemplo, declinaram de US$129,61/¢lbp para US$123,33/¢lbp, ou seja, declínio de 4,84% no período. Na média das cotações futuras registradas na quinta semana de maio de US$127,48/¢lbp, constata-se incremento de 3,36%, indicando, aparentemente, que a desvalorização cambial ocorrida na segunda quinzena do mês refletiu-se no mercado futuro da Bolsa (Figura 2).

 

No mercado físico do principal cinturão produtor de arábica em São Paulo, região de Franca, os cafeicultores receberam na média do mês de maio R$445,14/sc. pelo tipo 6 bebida dura2. Comparando-se esse preço com a média da cotação futura em segunda posição (quinta semana de setembro) de US$123,94/¢lbp e após efetuadas as devidas conversões a dólar futuro de R$3,57/US$, registrado na B3 na última semana de maio, e descontados 20% de diferencial e outras despesas, obtêm-se R$468,20/sc., acrescentando-se algo como R$23,00/sc. na contratação de hedge, ou seja, aproximadamente 5% de vantagem econômica frente à comercialização no físico. Tendo em vista o acentuado declínio da SELIC e o baixo retorno para as aplicações financeiras, ganho de 5% em período de 120 dias pode ser um atrativo relevante para que ocorra maior número de operações contratadas.

No mercado futuro de robusta da Bolsa de Londres exibiu médias semanais para as cotações futuras muito aderentes às registradas para o arábica em Nova York, ou seja, queda nas cotações médias entre as primeira e terceira semanas do mês e incremento na quarta. Na última semana do mês, o robusta voltou a cair, destoando do arábica que se manteve em ligeira alta. A massa de ar polar que atingiu os cinturões cafeeiros de arábica no Brasil, ocorrido na terceira semana do mês, sustentou ligeira alavancagem para suas cotações (Figura 3).

 

A recuperação da safra de conilon no Brasil, confirmada pelos órgãos oficiais de estatísticas agrícolas (CONAB e IBGE), já prevista pela maior parte dos investidores privados, foi fator que imprimiu tendência de baixa para a média das cotações.

A sinalização que o mercado não deve encontrar constrangimentos no fluxo de suprimento é atestado pela prevalência da posição vendida entre os fundos e grandes investidores. Ao longo do mês, a posição líquida vendida girava em torno de 45 mil contratos, ou seja, são restritas no curto prazo, pela interpretação dos investidores desse mercado, possibilidades de valorização do produto e, em consequência, de ganho financeiro na especulação (Tabela 1).

 

 

Em junho inicia-se o inverno no Hemisfério Sul. A especulação em torno do potencial de danos às lavouras tende a predominar nas apostas dos investidores. Caso o rigor do inverno se mantenha nos mesmos moldes dos anos anteriores, reação para as cotações somente devem ser esperadas a partir de outubro, quando começam a se formar as expectativas para a próxima safra.

 

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1O autor agradece o trabalho de sistematização do banco de dados econômicos conduzido pelo Agente de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica do IEA, o analista de sistemas Paulo Sérgio Caldeira Franco.

 

2Disponível para assinantes em: INSTITUTO DE ECONOMIA AGRÍCOLA - IEA. Banco de dados. São Paulo: IEA/ CATI. Disponível em: <http://ciagri.iea.sp.gov.br/precosdiarios/precosdiariosrecebidos.aspx?cod_sis=6>. Acesso em: jun. 2018.

 

Palavras-chave: mercado futuro de café, Bolsa de Valores, cotações.


Data de Publicação: 13/06/2018

Autor(es): Celso Luís Rodrigues Vegro (celvegro@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor