Bezerro: mercado e previsão de preços no Estado de São Paulo

            A pecuária bovina brasileira está passando por uma crise de rentabilidade, caracterizada pela queda da receita dos produtores de animais de todas as categorias, concomitante ao aumento dos preços dos insumos básicos da atividade (como adubos, sal, sal mineral, arame, óleo diesel, vacinas e medicamentos) e também dos salários.
            No momento, a grande indagação dos participantes da cadeia produtiva da carne bovina é até quando vai esse período de queda de preços dos animais. Ou seja, quando ocorrerá a reversão do ciclo de baixa dos preços da pecuária.
            O bezerro constitui o produto do primeiro elo criador da cadeia de produção da carne bovina. A evolução dos preços médios mensais recebidos pelos produtores de bezerro recém-desmamado no Estado de São Paulo - levantados pelo IEA/CATI e corrigidos para R$ de maio de 2005 pelo Índice Geral de Preços (IGP/FGV) - é apresentada no gráfico 1. Os preços não se referem especificamente aos bezerros nelore, mas representam uma média de preços de todos os tipos de bezerro.

Gráfico 1 - Preços do bezerro, SP, jan/1995-mai/2005, em R$ de maio de 2005

Fonte: Elaborado pelos autores a partir de dados do IEA/CATI (1995-2005)

            No período de janeiro/1996 a abril/2002, os preços reais do bezerro apresentaram tendência crescente, apesar de flutuações sazonais dentro do ano, mostrando que o mercado de bezerro, nesse período, esteve firme e comprador. A partir de abril/02, verificou-se uma inversão da tendência dos preços, que passaram a cair em ritmo semelhante ao observado no período de crescimento. O mercado de bezerro, nesse período, mostrou-se predominantemente vendedor, sofrendo o reflexo da concomitante queda verificada nos preços do boi gordo, que determina a capacidade e o volume de compra dos recriadores de bezerro.
            O padrão de comportamento sazonal dos preços nesse período, apresentado no gráfico 2, foi determinado por meio da utilização do método X-12.

Gráfico 2 – Índices sazonais do preço do bezerro, SP, jan/95–mai/05

Fonte: Elaborado pelos autores a partir de dados básicos do IEA/CATI (1995-2005)

            Observa-se que o preço máximo do bezerro ocorre no mês de abril, quando se inicia uma tendência de queda que vai até janeiro, quando há uma inversão de tendência e os preços começam a subir. A amplitude de variação do índice sazonal é pequena, de aproximadamente 7%.
            A sazonalidade da oferta de bezerros está relacionada com o fato de o maior número de coberturas, em condições naturais, ocorrer de outubro a janeiro, devido a fatores climáticos que têm influência na fisiologia da reprodução. Em função disso, a maior parte dos nascimentos ocorre de junho a setembro e as desmamas se concentram oito meses depois, de fevereiro a maio, quando ocorre, portanto, a maior oferta de bezerros.
            Existe também uma sazonalidade da demanda de bezerros por parte dos recriadores e produtores de boi gordo, que vendem a maior parte dos bois gordos no período de novembro a maio, quando os animais atingem o peso ideal. É no momento das vendas dos bois gordos que os recriadores compram os bezerros para repor seu rebanho. Parece, portanto, que o preço do bezerro está sendo mais fortemente influenciado pelo volume demandado do que pelo volume ofertado.
            A previsão dos preços futuros do bezerro é de grande utilidade, pois contribui para o melhor planejamento das atividades dos criadores e pecuaristas, especialmente no que diz respeito à tomada de decisão sobre os melhores momentos de compra ou venda de bezerros. A previsão de preços pode ser útil também nas negociações em bolsa dos mercados futuros. A previsão para o preço recebido pelo criador paulista de bezerro utilizou um modelo Auto-regressivo Integrado de Médias Móveis (ARIMA)1, construído com base na série de preços apresentada no gráfico 1. O modelo econométrico gerou previsões para os meses de junho a dezembro de 2005, que podem ser observadas no gráfico 3.
            O critério utilizado para verificar se um modelo de previsão é adequado, ou não, é o teste de desigualdade U de Theil2. Quanto mais próximo de zero for o valor de U, menor será a diferença entre os valores previstos e os valores observados, ou seja, melhor será a acurácia da previsão ou, ainda, menor será a margem de erro. No caso deste modelo, o coeficiente de desigualdade encontrado foi de 0,014, indicando que ele produz previsões muito satisfatórias.
            O gráfico 3 mostra que, à medida que o momento da previsão se distancia do presente, os limites inferior e superior do intervalo de confiança do valor previsto se distanciam, indicando que a possibilidade de acerto da previsão é maior no curto-prazo, pois a variância da previsão aumenta com o tempo.
            Os preços previstos para os próximos sete meses são muito semelhantes ao verificado nos mês de maio.3

Gráfico 3 – Evolução dos preços observados e previstos, limites inferior e superior do bezerro, SP, jan/05 a dez/05

Fonte: Elaborado pelos autores a partir de dados básicos do IEA/CATI (1995-2005)
 

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1VANDAELE, W. Applied Time Series and Box-Jenkins Models. San Diego: Academic Press, Inc, 1983.417p.
2THEIL, H. Applied economic forecasting. Amsterdan: North-Holland, 1966. 474 p.

3Artigo registrado no CCTC-IEA sob número HP-58/2005

Data de Publicação: 07/07/2005

Autor(es): Raquel Castelluci Caruso Sachs (raquelsachs@apta.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor
Sônia Santana Martins (soniasm@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor
Carlos Roberto Ferreira Bueno (cbueno@sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor