Feijão: Muita Incerteza E Insatisfação

            Os preços médios diários recebidos pelos produtores paulistas, em novembro, apresentaram-se decrescentes, iniciando-se com R$40,00 a saca de 60kg (em 01/11/00) e terminando em R$38,00 (em 30/11/00). Entre os dias 21 e 27 o preço recebido subiu para R$42,00 a saca no Escritório de Desenvolvimento Rural (EDR) de Avaré. Os preços modais de feijão carioquinha Tipo 1 no atacado da cidade de São Paulo variaram de R$43,00 a R$48,00 a saca de 60kg, apresentando a margem de comercialização em relação aos preços recebidos pelos produtores de R$4,00 a R$10,00 por saca (Figura 1).

Figura 1 - Preços Médios Diários Recebidos pelos Produtores de Feijão do Escritório de Desenvolvimento Rural de Avaré, Estado de São Paulo, e Preços Modais de Feijão Carioquinha Tipo 1 no Atacado da Cidade de São Paulo, Agosto a Novembro de 2000.

Fonte: Instituto de Economia Agrícola.
 

            O preço médio mensal recebido pelos produtores paulistas em novembro foi de R$39,10 a saca, com quedas de 10% em relação ao mês anterior e de 27% em relação ao mesmo período de 1999. Analisando-se retrospectivamente os preços médios mensais recebidos pelos produtores paulistas nota-se que este ano foi um dos piores nos últimos cinco anos. Entre fevereiro e março, ocorreu o pior desempenho econômico do período, tendo apresentado os valores de R$26,65, R$28,12 e R$30,16 em termos nominais, quando de 1996 a 1999 o preço médio desses meses girou em torno de R$55,00 em termos de outubro de 2000.
            Em maio deste ano, o preço médio ultrapassou a barreira de R$40,00 a saca, atingindo o pico de R$53,59 em agosto, em parte devido às geadas ocorridas em julho e agosto. O pico foi seguido pelo movimento descendente nos preços recebidos pelos produtores, com pequenas oscilações diárias. Pode-se dizer que a crise do mercado de feijão em 2000 só é comparável à de 1997, com a diferença de que naquele ano ela foi pior no segundo semestre e neste ano, foi pior no primeiro (Figura 2).
 
 

Figura 2 - Preços1 Médios Mensais Recebidos pelos Produtores de Feijão no Estado de São Paulo, 1996-2000.

1Em R$ de out./2000.

Fonte: Instituto de Economia Agrícola.
 

            Ao analisar a produção e consumo dos últimos sete anos, constata-se que o ano agrícola 1996/97 foi o último em que houve consumo acima de 3 milhões de toneladas e 1994/95 foi o último ano em que houve produção nacional acima de 3 milhões de toneladas, até repetir o fato em 1999/00. O mercado de feijão no Brasil, tudo indica, não comporta mais produção anual acima de 3 milhões de toneladas, pois o consumo está abaixo desse patamar. Com o estoque regulador anual variando de 100 a 350 mil toneladas e a importação anual variando de 90 a 190 mil toneladas nos últimos anos, qualquer grão produzido acima dos 3 milhões de toneladas anuais é 'a gota que transborda'.
            A elasticidade-renda do consumo de feijão, medida tanto em termos de despesas com o produto como em termos de consumo físico, estimada para metrópoles brasileiras apresenta sinal negativo, isto é, para um determinado aumento de renda ocorre diminuição no consumo de feijão, em ambas as formas consideradas, quando não se leva em conta os estratos de renda familiar. Por sua vez, um grupo intermediário, nem muito pobre nem muito rico, apresentou elasticidade-renda positiva para o consumo de feijão, ou seja, verifica-se aumento do consumo de feijão concomitantemente ao aumento da renda. Mas no cômputo geral os brasileiros diminuem o consumo de feijão quando aumenta a renda familiar.
            Disso tudo, conclui-se que a produção total de feijão de 3,07 milhões de toneladas, em 1999/2000, esteve acima da quantidade demandada pelos consumidores, com reflexo nos preços de mercado. Neste ano, só a Bahia produziu 313 mil toneladas na primeira safra e 214 mil toneladas na segunda, totalizando 527 mil toneladas, ou seja, um quarto da produção anual nacional. Num mercado de elasticidade-renda negativa, qualquer produção acima do nível de consumo, causa queda nos preços.
            A oferta de feijão por origem em novembro, na zona cerealista de São Paulo, segundo Bolsinha Informs, restringiu-se a 80% oriundos de São Paulo e 20% do Paraná, em 09/11/00, e de 85,2% originários de São Paulo e 14,8% do Paraná, em 31/11/00.
            Em dezembro, aguarda-se mudança no comportamento do mercado de feijão, com a entrada do produto novo, pois em agosto, setembro e parte de novembro, o consumo de feijão baseou-se em grande parte na produção de feijão da seca (cerca de 1,4 milhão de toneladas).
  

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Data de Publicação: 14/12/2000

Autor(es): Ikuyo Kiyuna Consulte outros textos deste autor
Celso Luís Rodrigues Vegro (celvegro@sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor
Nelson Batista Martin (nbmartin@uol.com.br) Consulte outros textos deste autor