A Substituição De Empregos Por Máquinas: Uma Simulação para o corte da cana-de-açúcar em São Paulo

            A atividade agrícola da cana-de-açúcar no Estado de São Paulo é responsável por 36% da demanda pela força de trabalho do total das principais culturas. Em seguida, aparecem café, com participação de 14%, e depois laranja, com participação de 11%. As três atividades completam 61% do total. A cana-de-açúcar é a maior empregadora por utilizar maior área. Ela gera 0,082 ocupação por hectare, enquanto o café e a laranja, com menores áreas cultivadas, geram 0,3 e 0,1 ocupações por hectare, respectivamente (Seade, 2002)1.
            Essas diferenças podem ser, em parte, creditadas ao nível de tecnificação alcançado em cada uma das atividades, posto ser a mecanização uma força diretiva comum ao padrão tecnológico do modelo de agricultura produtivista e, mais particularmente, devido ao fato de ser a cana-de-açúcar a que mais evoluiu nessa direção, dada a escala de produção, com a colheita (fase mais empregadora) bastante avançada em termos de mecanização. Estudos feitos para o Estado de São Paulo mostram uma estimativa de 29% de corte mecanizado para a safra 1999/00 (veiga Filho, 2002)2 e uma projeção de corte mecanizado de 35% para 2002 (IDEA, 2002)3. Na laranja, esse processo pode ser considerado inexistente e no café, bastante inexpressivo4.
            Tendo em vista esse fato, pretende-se avaliar, através de uma simulação, o impacto do avanço da mecanização do corte na cana-de-açúcar, procurando-se quantificar os postos de trabalho que poderão ser substituídos pelas máquinas colhedoras de cana.

Estimativa de substituição: hipóteses adotadas e resultados encontrados

            Para efeito de simplificação de cálculo, adota-se a área de 2,5 milhões de hectares, como sendo um valor estável médio de ocupação para a cana nos próximos anos. Imagina-se que, numa intensificação do processo de mecanização do corte, deverá haver muita mudança espacial, em busca de terras aptas, trocando-se, quando possível, aquelas em que a declividade for fator limitante.
            Supondo, também, que no final do processo se fique com uma utilização do solo no qual 60% desse total seja mecanizável, embora regionalmente se chegue a valores muito superiores, então seria incorporado, a partir da safra 1999/00, época final do trabalho em que este artigo se baseia, 1,074 milhão de hectares, uma vez que até essa safra já havia 426 mil hectares mecanizados. Além disso, verificou-se a utilização de 390 colhedoras nessa safra, um índice de mecanização de 1.093 hectares (quantidade de hectares colhido por máquina), e que a taxa histórica de crescimento da área mecanizada era de 14,2% ao ano (Veiga Filho, 2002). Com esses dados, elaborou-se a tabela abaixo, simulando-se o crescimento da área, do número de máquinas e da quantidade de emprego qualificado, na proporção de cinco novos empregos por máquina, entre operadores, mecânicos e outros.

            Para alcançar o valor estipulado, necessita-se de sete safras, aproximadamente, chegando-se a 1,079 milhão de hectares em 2006/07, com pequena diferença da meta inicialmente estabelecida, e à quantidade de 987 colhedoras, 597 unidades adicionais, distribuídas por ano5. O quanto isso representa em termos de substituição pode ser verificado na tabela 2. O cálculo é feito através da produção diária, multiplicada pelo número de máquinas adicionais, e o resultado é dividido pela produção diária manual e subtraído do número de empregos qualificados.

Tabela 2. Substituição líquida de postos de trabalho

Safras
até 1999/00
Situação 1
Situação 2
situação 3
1999/00
25.907
     
2000/01  
3.654
3.654
3.654
2001/02  
4.184
4.184
4.184
2002/03  
4.782
4.589
5.296
2003/04  
5.445
5.226
6.031
2004/05  
6.243
6.579
7.586
2005/06  
7.106
7.488
8.634
2006/07  
8.171
8.611
9.929
sub total  
39.585
40.331
45.314
total 1  
65.492
   
total 2    
66.238
 
total 3      
71.221

            Examinam-se três situações: a primeira, em que a quantidade colhida manualmente é fixada em 7 toneladas/dia e a quantidade colhida por máquina é fixada em 500t/dia, valendo para todas as safras. Na segunda situação, supõe-se que a quantidade colhida manualmente evolua para 8t/dia a partir da safra 2002/03, com as máquinas colhendo 550t/dia em 2002/03 e 2003/04 e 600t/dia em 2005/06 e 2006/07. Na terceira situação, supõe-se que a quantidade colhida manualmente não se altere e que a quantidade colhida por máquina tenha a mesma evolução anterior.
            Nessas condições, e partindo-se da observação de que teria havido uma substituição líquida de 25.907 postos de trabalho na colheita até a safra 1999/00, o número adicional acumulado de substituição para o horizonte de sete anos estaria variando entre 39,6 mil e 45,3 mil, significando um total geral entre 65,6 mil e 71,2 mil postos de trabalho substituídos.
            Estes, sem dúvida, não são números baixos quando comparados com a população trabalhadora atual na agricultura paulista, de 1.146,8 mil pessoas (Vicente et al, 2002)6, fazendo parte daquelas 200 mil pessoas que perderam emprego no setor, conforme decréscimo estimado por esses autores para a década de 1990.
            Parte do contingente de trabalhadores que deixou de trabalhar na colheita da cana-de-açúcar, como seria de se esperar, ao aproveitar-se de condições como idade, potencial, etc, deve estar empregada. Entretanto, outra parte, provavelmente a maior, deve estar, como eufemisticamente se costuma dizer, vivendo de 'bicos', uma vez que normalmente quem trabalha na colheita são os menos qualificados.
            Urge dar conta desse problema, pois ele faz parte da enorme dívida social que nós, os brasileiros, herdamos e não podemos, sob qualquer hipótese, deixar como herança para as gerações futuras.
 
 

1 SEADE. Sensor Rural. Boletim de Acompanhamento da Demanda da Força de Trabalho Agrícola no Estado de São Paulo e no Brasil. São Paulo, no. 18, maio/junho 2002. 
2 VEIGA FILHO, A. de A.  Evolução da Mecanização do Corte da Cana-de-Açúcar em São Paulo, 1988/89-1999/00 ( mimeo). 
3 IDEA News. Um Bem Necessário. Ribeirão Preto, ano 3, no. 18, março de 2002.
4 Ressalte-se que a colheita mecânica é amplamente adotada para o café da região do cerrado mineiro e está iniciando-se na região de Franca, em São Paulo.  
5 Não estão incluídas, nesta estimativa, as reposições por uso e por defasagem tecnológica. 
6 VICENTE, M.C.M.; FRANCISCO, V.L. dos SANTOS; BAPTISTELLA, C. da S.L.  Mercado de Trabalho no Rural Paulista, 2000-01. Informações Econômicas, São Paulo, v.32, n.9, sete. 2002.

 

Data de Publicação: 28/10/2002

Autor(es): Alceu De Arruda Veiga Filho (alceu@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor