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FERTILIZANTES: reversão dos excessos

            As entregas totais de fertilizantes ao consumidor final no País nos três primeiros meses de 2009 apresentaram substancial declínio (23,7%) quando comparado com o mesmo período de 2008, perfazendo apenas o volume de 4,151 milhões de t de produto entregues. Esse desempenho somente não foi pior em decorrência de vários fatores como: os bons preços da soja no mercado internacional, câmbio mais favorável para exportação de commodities, queda dos preços dos fretes internacionais e dos seus respectivos seguros e retração nas cotações do petróleo.

            Os preços dos fertilizantes decresceram no primeiro trimestre de 2009 em relação aos preços elevados observados em 2008, especialmente entre junho e setembro quando os preços médios de fertilizantes pagos pelos agricultores na Região Centro-Sul chegaram atingir seu pico contabilizando U$785,8/t em agosto1. Esse declínio nos preços contribui para que no período de janeiro a março de 2009 fosse observada uma evolução positiva da relação de troca para os agricultores em relação a 2008, considerando a maioria das culturas demandadoras de fertilizantes (como soja, milho e algodão), exceto trigo e cana-de-açúcar2.

            De acordo com o critério de regionalização para o Brasil do Sindicato da Indústria de Adubos e Corretivos Agrícolas, no Estado de São Paulo (SIACESP), no período de janeiro a março de 2009 todas as Regiões mostraram decréscimo nas entregas, em relação à igual período de 2008: Centro de 22,7%, Sul de 30,8%, Nordeste de 26,2% e Norte de 24,9% (Tabela 1).

            Nos cinturões verdadeiramente produtores de grãos e fibras: Mato Grosso, Goiás, e Mato Grosso do Sul, o declínio nas entregas de fertilizantes no primeiro trimestre superou os 30%. Essa constatação, associada a localizados distúrbios climáticos regionalmente observados, poderá frustrar as expectativas otimistas em torno do rendimento esperado das glebas cultivadas.

            No primeiro trimestre de 2009, a produção da indústria nacional de produtos intermediários para fertilizantes foi inferior em 28,5% ao registrado no mesmo período do ano anterior, somando 1,6 milhão de t de produto. Também, as importações brasileiras de fertilizantes, no referido período, decresceram consideravelmente (82,5%), perfazendo 729 mil de t de produto. O porto de Paranaguá foi o principal modal de desembarque de fertilizantes no País, seguido pelos portos de Santos/SP e Rio Grande/RS.

Tabela 1 – Entregas de Fertilizantes ao Consumidor Final, por Região e Estado, Brasil, 2008 e Janeiro a Março de 2008 e de 2009
(em mil t de produto)


 

Região e Estado
2008

(b)

Jan.-mar.2008

(c)

Jan.-mar.2009

(d)

Variação (%)

(d/c)

Região Sul
Rio Grande do Sul
2.547.789 
371.688
257.262
-30,8
Santa Catarina
653.778 
104.982
72.383
-31,1
Subtotal
3.201.567
476.670
329.645
-30,8
Região Centro
Distrito Federal
39.471 
6.386
6.536
2,3
Espírito Santo
260.352 
82.761
68.665
-17,0
Goiás
2.033.356 
528.229
371.164
-29,7
Mato Grosso
3.714.856 
1.017.485
697.966
-31,4
Mato Grosso do Sul
1.014.478 
344.152
237.328
-31,0
Minas Gerais
2.775.898 
603.443
592.878
-1,8
Paraná
3.250.315 
959.751
789.842
-17,7
Rio de Janeiro
45.174 
13.985
9.456
-32,4
São Paulo
3.259.865 
847.065
628.120
-25,8
Tocantis
156.429 
20.816
18.579
-10,7
Subtotal
16.550.194
4.424.073
3.420.534
-22,7
Região Nordeste
Alagoas
178.527 
78.654
55.210
-29,8
Bahia
1.407.099 
175.674
145.800
-17,0
Ceará
30.854 
9.063
9.388
3,6
Maranhão
302.255 
57.091
29.610
-48,1
Paraíba
42.968 
21.035
18.712
-11,0
Pernambuco
187.679 
65.990
50.328
-23,7
Piauí
170.676 
18.271
5.100
-72,1
Rio Grande Norte
48.556 
21.122
12.195
-42,3
Sergipe
52.155 
14.135
13.710
-3,0
Subtotal
2.420.769
461.035
340.053
-26,2
Região Norte
256.702
80.701
60.605
-24,9
Brasil
22.429.232
5.442.479
4.150.837
-23,7

Fonte: Comitê de Estatística da ANDA.

            Em abril de 2009 o segmento estimou que suas entregas totalizariam apenas 1,154 milhão de t de produto. Comparativamente, em abril do ano anterior foram entregues 1,680 milhão de t, ou seja, houve um imenso tombo no desempenho do segmento.

            O colapso financeiro que se refletiu no travamento e encarecimento dos mecanismos usuais de crédito contratados junto aos bancos e multinacionais de insumos usualmente aplicados na viabilização de operações de comércio responde em parte pela menor entrega de produto. O carregamento de elevados estoques de fertilizantes com preços majorados se constituiu em fator adicional na suspensão dos negócios3.

            As previsões iniciais do setor de fertilizantes para 2008 que eram muito otimistas obviamente não foram alcançadas. Essas estimativas foram tomadas como base o bom desempenho do mercado no período de janeiro a julho de 2008, com as entregas totalizando 13,952 milhões de t de produto (acréscimo de 20,2% em relação ao mesmo período de 2007). Entretanto, a partir de agosto até dezembro de 2008, com a contaminação sistêmica provocada pela crise econômica, constatou-se declínio nas vendas em todos os meses desse período, fechando o total das entregas no Brasil em 22,429 milhões de t de produto com decréscimo de 8,9% em relação ao ano anterior.

            A virulência com que se disseminou o colapso financeiro promoveu uma inversão no padrão sazonal estabelecido para o movimento de vendas de fertilizantes. Assim, o maior volume comercializado concentrou-se no primeiro semestre (51,3%), quando o esperado em conformidade com os anos anteriores seria maiores volumes entregues no segundo semestre, simultaneamente ao plantio das culturas de verão (Figura 1).

Figura 1 - Fertilizantes Entregues ao Consumidor Final, Estado de São Paulo e Brasil, Janeiro de 2006 a Março de 2009. 

Fonte: AMA-BRASIL, ANDA, SIACESP, SIARGS e SIACAN.

            Na análise por Unidades da Federação, observou-se que a maioria dos estados brasileiros mostrou decréscimo nas vendas no referido período. Mato Grosso, maior produtor nacional de soja, que liderou o ranking nas entregas (3,7 milhões de t de produto), em 2008, registrou retração de 7,6% em relação a 2007. Esse Estado representou 16,6% das entregas totais, seguido de São Paulo (14,5%), Paraná (14,5%), Minas Gerais (12,4%) e Rio Grande do Sul (11,4%) (Tabela 1).

            Os acréscimos acentuados nos preços dos fertilizantes em 2008, aliados à queda nos preços recebidos de várias culturas, contribuíram para que os principais produtos agrícolas, como algodão, arroz, batata, café, cana-de-açúcar, laranja, soja, milho e trigo, apresentassem relações de troca mais desfavoráveis para aquisição desse insumo, quando comparado com o ano anterior, à exceção do feijão. Por exemplo, para a cana-de-açúcar em 2007 eram necessárias 19,8t do produto para adquirir igual quantidade de fertilizantes, tendo aumentado para 36,4t em 2008.

            A retração na demanda refletiu na produção da indústria nacional de produtos intermediários para fertilizantes em 2008 que foi de 8,878 milhões de t de produto, quantidade 9,6% inferior ao registrado no ano precedente. Observou-se, assim, queda nas quantidades produzidas, em termos de nutrientes, dos fertilizantes nitrogenados (9,4%), dos fosfatados (6,5%) e dos potássicos (9,6%). No caso das matérias-primas para fertilizantes, constatou-se menor produção de rocha fosfática industrial, ácido fosfórico e ácido sulfúrico.

            Também decresceram, no referido período, as importações brasileiras de fertilizantes (12,1%), as quais totalizaram 15,4 milhões de t. O cloreto de potássio foi o principal produto importado, respondendo por 42,4% do total, seguido de uréia (13,7%), sulfato de amônio (9,2%) e MAP (6,8%). Segundo fontes do setor, a queda na oferta de crédito para importação de matéria-prima para produção de adubo foi um dos efeitos da crise para as empresas produtoras de fertilizantes.

            O dispêndio de divisas com importações de fertilizantes, incluindo matérias-primas para fertilizantes, em 2008, está estimado em US$11,31 bilhões - FOB, com crescimento de 124,5% em relação ao ano anterior4.

            As cotações dos principais fertilizantes no mercado internacional cresceram consideravelmente nos últimos dois anos (2007 e 2008). Os preços médios FOB dos fertilizantes importados cresceram de US$190,43 t em 2006 para US$262,38 em 2007, e depois para US$589,14 em 20085.

            Ressalte-se que a partir de setembro de 2008 até março de 2009, os preços correntes dos fertilizantes nitrogenados no mercado internacional apresentaram retração, influenciados em grande parte pela redução do preço do petróleo.  Porém, a cotação do cloreto de potássio, principal produto importado, apesar de apresentar ligeira queda no mercado internacional, a cotação ainda se encontra muito elevada. Em março de 2007, o preço médio do cloreto de potássio importado estava em US$FOB 176,4/t, sobe para US$FOB 359,22/t em março de 2008, e depois para US$828,51/t em março de 2009.

            O Brasil importa cerca de 70% de sua demanda de fertilizantes. Na tentativa de reverter esse quadro o governo federal lançou em abril de 2009 um novo Plano Nacional de Fertilizantes, cujo detalhamento deverá ser apresentado até o fim de junho, visando à redução da dependência externa do País na área de nitrogenados, fosfatados e potássicos, com a meta de 10 anos para que se atinja a autossuficiência. O mapeamento dos jazimentos e a elaboração da arquitetura financeira capaz de mobilizar os recursos necessários para a plena exploração dessas fontes minerais já se encontram delineados em âmbito ministerial. Assim, o incremento da oferta interna de fertilizantes constitui-se num cenário bastante plausível para o prazo estabelecido.

            Para além da existência das jazidas minerais, o marco regulatório do segmento precisa ser reformulado. O produto importado, por exemplo, encontra-se isento do recolhimento de tributos enquanto o produzido internamente é passível de ônus tributário. Outras questões conexas como a necessidade de ampliação e melhoria da infraestrutura logística e o equacionamento dos impactos intrínsecos decorrentes da atividade mineradora, que se encontram por serem superados.

            O estoque final de fertilizantes em 2008 foi bastante alto, perfazendo 6,404 milhões de t de produto contra 4,397 milhões de t observadas em 2007, ou seja, 45,6% superior (Tabela 2).

Tabela 2 - Estimativa de Oferta e Demanda de Fertilizantes, Brasil, 2008 e Janeiro a Março de 2008 e 2009
(em t de produto)


 

Item
2008
Jan.-mar.2008 

(a)

Jan.-mar.2009

(b)

Var. %

(b/a)

1 - Estoque inicial
4.397 
4.397 
6.404 
45,6 
2 - Produção nacional
8.878 
2.229 
1.594 
(28,5)
3 - Micros/aditivos
825 
205 
132 
(35,6)
4 - Importação
15.412 
4.164 
729 
(82,5)
5 - Disponibilidade
29.512 
10.995 
8.859 
(19,4)
6 - Exportação
401 
99 
57 
(42,4)
7 - Entregas consumidor
22.429 
5.442 
4.151 
(23,7)
8 - Quebras/ajustes
278 
71 
36 
(49,3)
9 – Estoque final
6.404 
5.383 
4.615 
(14,3)

Fonte: Comitê de Estatística da ANDA.

            A previsão do setor de fertilizantes para 2009 é de que as entregas permaneçam no mesmo nível do ano anterior, totalizando em torno de 22 milhões de t de produto, que é muito inferior à quantidade recorde observada em 2007 que foi de 24,6 milhões de t de produto. Essa expectativa se deve aos reflexos da crise econômica mundial, à precária disponibilidade de crédito aos produtores, incrementado pelo passivo não honrado que impede a muitos de iniciar um novo ciclo de contratação de financiamentos.
______________________________________________________________________________

1ASSOCIAÇÃO NACIONAL PARA DIFUSÃO DE ADUBOS – ANDA. Relação de trocas: região Centro-Sul. São Paulo: ANDA, 2009.

2Op cit. nota 1.

3RAHM, M. R.; FUNG, J.; PHILIPPI, M. O impacto da crise econômica mundial no mercado de nutrientes agrícolas. Market Mosaic, São Paulo, v. 4, jan./mar. 2009.

4SINDICATO DA INDÚSTRIA DE ADUBOS E CORRETIVOS AGRÍCOLAS NO ESTADO DE SÃO PAULO - SIACESP. Fertilizantes e matérias-primas para fertilizantes: importações efetivas – período de janeiro a dezembro de 2007 e 2008. São Paulo: SIACESP, 2009.

5Op cit. nota 4.

Palavras-chave: mercado de fertilizantes, preços de fertilizantes, indústria de fertilizantes.

 

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Data de Publicação: 29/05/2009
Autor(es): Célia Regina Roncato Penteado Tavares Ferreira (celia@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor
Celso Luís Rodrigues Vegro (celvegro@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor