Café: mercado em queda, nova safra brasileira e baixo risco de geada

            A chegada da nova safra brasileira de café - uma safra cheia cuja estimativa varia de 40,6 milhões a 46 milhões de sacas - e a frustração com o risco de geada em de maio e princípio de junho derrubaram as cotações do café em todos os mercados mundiais, fazendo com que os preços médios regredissem aos níveis do último trimestre de 2005. Além disso, a volatilidade ocorrida no mercado financeiro internacional, devido ao crescimento da inflação e do elevado déficit orçamentário dos Estados Unidos, levou a uma ação errática dos fundos, o que afetou principalmente as commodities agrícolas, com o deslocamento de suas aplicações para os títulos do governo americano.
            Associado a este fato, observou-se uma desvalorização do dólar da ordem de 10,11%, o que estimulou as vendas por parte dos exportadores brasileiros, pressionando ainda mais as cotações em Nova Iorque. Assim, o mercado de café foi fortemente atingido pelo mercado financeiro internacional em maio, mesmo com mais de seis meses de queda nas exportações mundiais de café e as informações da Organização Internacional do Café (OIC)1 sobre a forte redução dos estoques internacionais e a tendência de déficit no mercado do produto.
            Na Bolsa de Nova Iorque, as cotações médias do arábica caíram 5,21%, em relação à cotação média de abril de 2006 (Contrato C, segunda posição). Na Bolsa de Londres, o robusta registrou queda de 1,37% (igualmente para a segunda posição). No mercado de futuros da BM&F, o preço do arábica teve baixa de 5,97% (segunda posição). O indicador OIC-Composto diário apresentou leve baixa de 4,46% em relação à média do índice de abril (gráfico 1).

Gráfico 1 - Cotações médias mensais do café em diferentes mercados de futuros (segunda posição) e do OIC-Composto diário, 2004 a 2006

Fonte: Gazeta Mercantil

            O diferencial entre as cotações observadas na BM&F e em Nova Iorque cresceu para US$ 14,44 a saca, cerca de 1,98% superior à média do mês anterior, devido à maior oferta brasileira no mercado de Nova Iorque. Esse diferencial nos últimos doze meses pode ser verificado no gráfico 2.

Gráfico 2 – Cotações Médias Mensais do café arábica, segunda posição, nos mercados de Nova Iorque e BM&F (São Paulo), 2005-06

Fonte: Gazeta Mercantil

            As cotações do arábica, contrato C, segunda posição, na Bolsa de Nova Iorque, exibiram tendência contínua de queda durante todo o mês de maio (gráfico 3).
 


Gráfico 3 - Cotações diárias em maio de 2006 na Bolsa de Nova Iorque, para café arábica, Contrato C, segunda posição

Fonte: Gazeta Mercantil.

            No mercado de robusta na Bolsa de Londres, o comportamento foi semelhante ao de Nova Iorque, ao apresentar queda contínua durante todo o mês de maio. O comportamento das cotações no mercado de Londres em maio, segunda posição, pode ser verificado no gráfico 4.

Gráfico 4 - Cotações diárias para o café robusta, segunda posição, na Bolsa de Londres, no mês de maio de 2006

Fonte: Gazeta Mercantil

            Na BM&F, a evolução dos preços do arábica, segunda posição, cotados em dólar por saca em maio, indica variações negativas acumuladas de 0,52% no ano de 2006 e de 15,67% nos últimos doze meses. No mercado de Nova Iorque, os preços do arábica, contrato C, segunda posição, tiveram alta de 4,26% no ano de 2006 e queda de 14,06% no acumulado dos últimos doze meses. Por sua vez, as cotações do robusta no mercado de Londres, segunda posição, tiveram variação acumulada de 2,06%, nos últimos doze meses e de 1,71% em 2006, enquanto a estimativa do OIC-Composto apresentou crescimento acumulado de 3,96%, em 2006, e queda de 9,80% no acumulado dos últimos doze meses.
            Na cafeicultura paulista, as cotações médias em maio do café arábica caíram 4,85% em relação à média de abril de 2006, em função da baixa generalizada do produto no mercado internacional. Houve, portanto quedas acumuladas de 22,70% nos últimos doze meses e de 1,42% em 2006 (gráfico 5).
 

Gráfico 5 - Preços médios mensais recebidos pelos produtores de café arábica, Estado de São Paulo, 2002 a 2006


Fonte: Instituto de Economia Agrícola

Exportações surpreendem2

            Dados divulgados pelo Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (CeCafé)3 surpreenderam o mercado ao apontar expressiva elevação do volume de embarques e das receitas obtidas pelos negócios internacionais envolvendo a commodity. Apenas em maio de 2006, foram embarcadas 2,176 milhões de sacas ante 1,789 milhão de sacas em igual mês do ano anterior.
            O comportamento das receitas cambiais obtidas apresentou igual desempenho, com crescimento de 22%; ou seja, saltaram de US$ 219,02 milhões para US$ 268,55 milhões em maio de 2006. Duas razões podem explicar o fato: a) início da colheita no país e necessidade de desocupar armazéns visando acomodar o produto que começa fluir para os depósitos; e b) ligeira valorização do real em função dos desdobramentos da economia internacional, especialmente a alta tanto dos juros quanto da inflação nos Estados Unidos. Todavia, o melhor resultado de maio não foi capaz de reverter o contexto de diminuição dos negócios no ano (janeiro a maio de 2006) com queda de 13,3% nos embarques e de apenas 0,8% nas receitas (tabela 1).

Tabela 1 – Evolução das exportações brasileiras de café, ano safra, julho 2004 a maio 2005
 

Período
Volume (sc 60 kg)
Receita

US$

Robusta
Arábica
Verde
Solúvel
Total
Jul.05-maio 06
904.162
18.870.657
19.774.819
2.856.530
22.631.349
2.667.386
Jul.04-maio 05
662.523
22.106.434
22.769.957
3.102.262
25.871.219
2.344.248
Variação 
241.639
(3.235.777)
(2.994.138)
(245.732)
(3.239.870)
323.137
%
36,5
(14,6)
(13,2)
(7,9)
(12,5)
13,8

Fonte: Elaborado a partir de dados básicos do CeCafé

            Nos primeiros cinco meses de 2006, dentre os dez principais clientes do produto brasileiro, apenas Suécia e Holanda apresentaram maiores compras, comparadas às de igual período do ano anterior, com incremento de 4,63% e de 10,74%, respectivamente. Em outros oito principais países compradores, verificaram-se profundas reduções nas aquisições do produto, como por exemplo na Alemanha e nos EUA com 9,13% e 13,63%, respectivamente, embora a maior queda tenha sido observada para a Bélgica (27,53%).
            Diante desses resultados, o segmento deve monitorar a evolução das compras dos principais clientes com o intuito de buscar um reposicionamento do café brasileiro nesses importantes mercados, pois, se não o fizer, competidores o farão para júbilo de seus cafeicultores.

Drawback: ação sem resignação

            O pacote agrícola franqueou a possibilidade de importação de café verde visando à reexportação, ou seja, a inclusão do produto no regime chamado de drawback. Antiga reivindicação do segmento de solubilização, ao qual se somaram também os torrefadores com negócios com o exterior, somente agora alcançou êxito com a inclusão do procedimento no âmbito das medidas de apoio à agricultura.
            A anuência governamental ao pleito de parcela do agronegócio depende, entretanto, de outras medidas regulatórias e de monitoramento do procedimento, tais como:

  1. prevenção ao risco fitossanitário: adequação da legislação vigente, ainda que a existente seja considerada suficiente para prevenção dos riscos da entrada de café de outras origens no país;
  2. impedimento de operações com escopo de financiamento: as autorizações de drawback seriam autorizadas somente para as empresas que efetuem pagamento a vista do produto importado, pois caso contrário poderia ser utilizado apenas como mecanismo de acesso a taxas de juros mais baixas que a praticada no mercado interno;
  3. gradualismo: as autorizações seriam concedidas de forma gradual permitindo monitoramento e reavaliações sempre que necessárias;
  4. dumping de preços: as cotações internacionais seriam referência para os negócios praticados; ou seja, produtos com preços de importação abaixo da cotação internacional não teriam acesso ao país;
  5. risco de qualidade: respeito aos padrões vigentes para a torrefação e solubilização (COB 8 para arábica e limite de padrão em vigor na bolsa londrina para o robusta);
  6. risco institucional: prospectar demandas para melhoria do regimento do drawback com apoio inclusive da pesquisa científica.
            Ao computar todos os riscos com o rol de prováveis benefícios (mais de 30 para todos os segmentos do agronegócio café, inclusive consumidores4), observa-se que a balança pende para as vantagens do uso do mecanismo de drawback. Expressão cunhada por esses analistas, ainda em 1996, tornou-se palavra-chave na consecução desse objetivo, qual seja: propiciar ao Brasil a consolidação de uma posição verdadeira plataforma global de negócios envolvendo o café.5
 

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1 OIC: www.ico.org
2 Maiores detalhes em www.revistacafeicultura.com.br
3 Cecafe: www.cecafe.com.br
4 Maiores detalhes em www.cicbr.org.br
5 Artigo registrado na CCTC-IEA sob número HP-64/2006.

Data de Publicação: 09/06/2006

Autor(es): Nelson Batista Martin (nbmartin@uol.com.br) Consulte outros textos deste autor
Celso Luís Rodrigues Vegro (celvegro@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor